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Análise Comercial do Cabelo:
Um Sinal Cardinal de Charlatanismo

Stephen Barrett, M.D.

A análise do cabelo é um exame em que uma amostra dos cabelos de uma pessoa -- tipicamente da parte de trás do pescoço -- é enviada para um laboratório para se medir seu conteúdo de minerais. Esta discussão diz respeito a análise multi-elementar do cabelo em que um único exame é utilizado para determinar os valores de muitos minerais simultaneamente. Este tipo de análise usada por quiropráticos, "consultores de nutrição," médicos que fazem quelação e outros profissionais dúbios que alegam que a análise do cabelo pode ajudá-los a diagnosticar uma grande variedade de doenças e pode ser usada como base para a prescrição de suplementos alimentares.

Análise das Alegações dos Proponentes

Os proponentes da análise do cabelo alegam que ela é útil para avaliar o estado geral de nutrição e de saúde de uma pessoa e é valiosa na detecção de predisposição às doenças. Eles também alegam que a análise do cabelo possibilita ao terapeuta determinar se deficiência mineral, desequilíbrio mineral ou poluentes de metais pesados no corpo podem ser a causa dos sintomas de um paciente. Estas alegações são falsas. 

Por estas razões, a análise multi-elementar do cabelo humano não é uma técnica válida para identificar excessos ou deficiências de elementos químicos essenciais ou não-essenciais do corpo. Tampouco proporciona uma base válida para a recomendação de vitaminas, minerais ou outros suplementos alimentares [2,3].

Em meados dos anos 80, havia cerca de 18 laboratórios fazendo análise comercial de cabelo nos Estados Unidos. Hoje existem menos. Alguns laboratórios pertenciam à American Society of Elemental Testing Laboratories (ASETL). Em 1982, a ASETL iniciou um programa em que um conhecido serviço de exames de alta qualidade recebeu e tabulou os dados da análise de amostras capilares idênticas enviadas para sete laboratórios membros da ASETL. Entretanto, no final do ano, o serviço se recusou a continuar porque os dados eram inconsistentes e pareciam não ter nenhum significado clínico. 

Em 1983 e 1984, eu enviei amostras do cabelo de duas adolescentes saudáveis para 13 dos laboratórios comerciais [4]. Em 1985, enviei amostras duplas de uma das garotas para mais cinco laboratórios. Os níveis relatados da maioria dos minerais variaram consideravelmente entre as amostras idênticas enviadas para o mesmo laboratório, e de um laboratório para outro. Os laboratórios também discordaram sobre o que é "normal" ou "usual" para muitos dos minerais, de modo que o valor de um dado mineral pode ser consideravelmente baixo para alguns laboratórios, normal para outros e alto para outros. 

A maioria dos relatórios continham interpretações computadorizadas que eram volumosas e potencialmente assustadores aos pacientes. Os nove laboratórios que incluíram em seus relatórios recomendações para o uso de suplementos sugeriram seu uso todas as vezes, mas os tipos e as quantidades variaram bastante de relatório para relatório e de laboratório para laboratório. Muitos dos itens recomendados eram misturas bizarras de vitaminas, minerais, substâncias alimentares desnecessárias, enzimas e extratos de órgãos de animais. Um relatório diagnosticou 23 "possíveis ou prováveis distúrbios," incluindo aterosclerose e insuficiência renal, e recomendou 56 doses de suplementos por dia. A literatura da maioria dos laboratórios sugeriam que seus relatórios eram úteis no manejo de uma grande variedade de doenças e de supostos desequilíbrios nutricionais. Conclui que o uso comercial da análise do cabelo dessa maneira não é científico, é um desperdício econômico e provavelmente ilegal, e que mesmo se a análise do cabelo fosse uma ferramenta diagnóstica de valor, é muito discutível se os próprios relatórios dos laboratórios eram confiáveis. 

Em 1985, o comitê de assuntos públicos do American Institute of Nutrition/American Society for Clinical Nutrition divulgou um comunicado com sua posição sobre a análise de cabelo. O comunicado concluiu que apesar da análise do cabelo possa ter algum valor para comparar grupos populacionais em relação a presença de vários minerais ou avaliar a exposição à metais pesados, avaliações individuais de pacientes parecem apresentar "dificuldades quase insuperáveis." Por esta razão, diz o comunicado, o melhor seria se análise do cabelo fosse restrita aos estudos experimentais desenhados para avaliar seu potencial como um indicador do estado nutricional e talvez para algumas pesquisas de saúde pública. Ao reparar que cerca de 100 artigos sobre análise do cabelo são publicados por ano, um nutricionista que criticou o comunicado lembrou que as limitações inerentes do exame faz com que muitas destas pesquisas sejam inúteis [5].

A política atual da AMA sobre a análise do cabelo -- adotada em 1984 e reafirmada em 1994, é:

A AMA se opõem a análise química do cabelo como um determinante da necessidade de terapia médica e apóia informações ao público americano e agências governamentais apropriadas sobre esta prática não comprovada e seu potencial para fraude na assistência à saúde [6].

Um estudo de 2 anos com estudantes expostos aos vapores de solda de metais descobriu que a análise do cabelo não refletiu consistentemente os níveis sangüíneos de 11 metais pesados [7].

Ações Governamentais

A análise do cabelo foi envolvida em um processo em 1980 pelo Gabinete do Procurador da Cidade de Los Angeles. De acordo com a nota oficial entregue à imprensa, Benjamin Colimore e sua esposa, Sarah, proprietários de uma loja de alimentos-saudáveis, estariam retirando amostras do cabelo dos clientes a fim de diagnosticar e tratar vários distúrbios. O processo foi instaurado após uma cliente apresentar queixa de que os Colimores haviam dito que ela tinha uma valva cardíaca defeituosa e que estava sofrendo de um abscesso no pâncreas, arsênico em seu sangue e tumores benignos no fígado, intestino e estômago -- tudo baseado na análise do cabelo da cliente. Duas substâncias foram prescritas, um "chá de ervas" que veio a ser ser somente lactose, e "Arsenicum," outro produto de lactose que continha traços de arsênico. Outra amostra do cabelo foi tirada quando a cliente retornou à loja cinco semanas depois. Ela foi informada que os problemas anteriores haviam desaparecido, mas que agora ela tinha chumbo em seu estômago. Um investigador do governo recebeu diagnóstico e tratamento similares. Após o declaração da defesa de "que não haveria contestação" a um enquadramento por exercício ilegal da medicina, os Colimores foram multados em 2 mil dólares, receberam um mandado de prisão suspenso no sexto dia e colocados em liberdade vigiada (*) por dois anos.   

Em 1985, em resposta a uma petição do Federal Trade Commission (FTC), um juiz federal emitiu uma injunção permanente contra Arthur, Ethel e Alan Furman e qualquer dos negócios em que eles possam atuar. O mandado proibia "que eles se promovessem . . . como pessoas muito diferentes dos profissionais da saúde, como sendo capazes, na base da análise do cabelo, medir com precisão o conteúdo elementar do corpo de uma pessoa ou recomendar vitaminas, minerais ou outros suplementos alimentares que podem corrigir excessos e deficiências químicas do corpo." [8] Como resultado da ação do FTC, o laboratório dos Furman foi fechado e, até recentemente, anúncios diretos ao público têm sido raros. Entretanto, o FTC não foi ao encalço dos laboratórios que prestam serviços aos profissionais porque considera que a má conduta profissional deveria ser regulada por órgãos estaduais. 

Em 1986, o Analytical Research Laboratories (ARL) de Phoenix, Arizona, assinou um acordo com o Procurado Geral do Estado de Nova York para interromper "a solicitação e o recebimento de amostras de cabelo para exames laboratoriais onde o propósito fosse a determinação de possíveis excessos ou deficiências dos níveis de minerais nutricionais ou níveis de metais tóxicos no corpo." O Procurador Geral agiu porque um proprietário de uma loja de alimentos-saudáveis vinha usando a análise do cabelo como base para recomendar vitaminas e suplementos alimentares. A ARL não tinha sido licenciada para atuar dentro do estado de Nova York, e a análise do cabelo para o propósito de determinação dos níveis de nutrientes é ilegal neste estado. 

Em 1986, o Doctor's Data, um laboratório com sede em Chicago concordou em parar de aceitar amostras de cabelo humano do estado de Nova York a menos que obtenha uma permissão do Departamento de Saúde do Estado de Nova York. A companhia também concordou em pagar 25 mil dólares pelas custas e multas. A ação foi tomada porque um "consultor nutricional" picareta tinha usado o exame como base para prescrever vitaminas, minerais e outros suplementos. 

Alegações Recentes

Biochemical Laboratories, de Edgewood, Novo México, alega que dores abdominais, hipertensão, anemia, hipoglicemia, ansiedade, impotência, depressão, infertilidade, diarréia, dores articulares, problemas de aprendizado, fadigas, dores de cabeça e síndrome pré-menstrual resultam todas de "desequilíbrios crônicos de metais," que, presumivelmente, podem ser diagnosticados com análise do cabelo e tratados com suplementos.

Trace Elements, Inc., de Dallas, Texas, promove "o equilíbrio da química do corpo através da análise mineral tecidual do cabelo." A companhia alega ter desenvolvido "uma abordagem terapêutica nutricional precisa baseada no reconhecimento de oito tipos bioquímicos individuais usando análise dos elementos do cabelo." Também vende "suplementos metabólicos sinergicamente formulados" para cada um destes tipos. Comercializado principalmente através de quiropráticos.  

Trace Mineral Systems, de Alexandria, Virginia, descreve sua análise capilar de US$ 49,95 como "o exame que ajuda a química do corpo" e a comercializa diretamente ao público. Um anúncio recente em uma revista alegava que os relatórios de seus exames poderiam mostrar "os excessos, as deficiências & as toxicidades do corpo e as doenças associadas a eles." [9]

Doctor's Data relata o nível de um "mineral tóxico" como alto quando a quantidade é próxima do máximo de sua "variação de referência". Isto meramente significa que a amostra contém mais que a maioria das outras amostras manuseadas pelo laboratório. Não significa que o nível é anormal ou que o nível no interior do corpo do paciente é perigoso. Em comunicado recente, a companhia reconheceu que "comparada com a interpretação de análises comumente medidas no sangue ou soro, a interpretação da análise de elementos do cabelo parece primitiva". Apesar, disto, os autores alegaram que poderia ser prudente "adotar uma variação de referência consistente com o que é observado em 95% de uma população saudável". [10]

É possível que os laboratórios que ainda estão fazendo a análise comercial do cabelo tenham se tornado mais acurados desde minhas investigações de meados dos anos 80. Entretanto, mesmo se o conteúdo mineral do cabelo for mensurado com 100% de acuidade, não fará nenhuma diferença porque os resultados não são úteis para medir o estado nutricional do corpo. Caso você encontre um profissional que alegue o contrário, corra até a saída mais próxima!

Referências

  1. Lazar P. Hair analysis: What does it tell us? JAMA 229:1908-1909, 1974.
  2. Hambidge KM. Hair analyses: Worthless for vitamins, limited for minerals. American Journal of Clinical Nutrition 36:943-949, 1983.
  3. Klevay LM and others. Hair analysis in clinical and experimental medicine. American Journal of Clinical Nutrition 46:233-236, 1987.
  4. Barrett S. Commercial hair analysis: Science or scam? JAMA 254:1041-1045, 1985.
  5. Fosmire GJ et al. Hair analysis to assess nutritional status. AIN Nutrition Notes 21(4):10-11, 1985.
  6. Hair analysis: A potential for medical abuse. Policy number H-175.995,(Sub. Res. 67, I-84; Reaffirmed by CLRPD Rep. 3 - I-94)
  7. Teresa M and others. Trace-element concentration in blood and hair of young apprentices of a technical-professional school. The Science of the Total Environment 205:189-193, 1997.
  8. FTC v Furman, 1985-1 CCH Trade Case (CCH) ¶66486 (ED Va 1985).
  9. Trace Mineral Systems. Alternative Medicine Digest, Aug/Sept 1998, p 99.
  10. Druyan ME and others. Determination of reference ranges for elements in human scalp hair. Biological Trace Element Research 62:183-197, 1998.

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Este artigo foi revisado em 28 de outubro de 2000.

 

 

 

 


 

* N.T.: Probation, no original, suspensão condicional da execução de uma sentença, sujeitando o réu primário a uma vigilância não policial mas educativa por um probation officer. [voltar ao texto]

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