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Terapia Crânio-Sacral

 Stephen Barrett, M.D.

A terapia crânio-sacral é um entre muitos termos usados para descrever uma variedade de métodos baseados em alegações fantásticas de que:

A maioria dos praticantes é formada por osteopatas, massoterapeutas, quiropráticos, dentistas ou fisioterapeutas. Os outros termos usados para descrever o que fazem incluem osteopatia cranial, terapia cranial, terapia bio cranial e duas variantes quiropráticas chamadas craniopatia e técnica sacro occipital (SOT, na sigla em inglês).

Alegações Duvidosas

A terapia crânio-sacral foi criada pelo osteopata William G. Sutherland, que publicou seu primeiro artigo sobre o assunto no início da década de 1930. Atualmente o principal divulgador é osteopata John Upledger, DO, que administra o Upledger Institute de Palm Beach Gardens, Flórida. Várias publicações do Instituto têm alegado:

A Terapia Crânio-Sacral é uma técnica suave e não invasiva de manipulação. Raramente o terapeuta aplica uma pressão que exceda cinco gramas ou o peso equivalente a um níquel. O exame é feito testando-se o movimento em várias partes do sistema. Freqüentemente, quando o teste de movimento está completo, a restrição foi removida e o sistema é capaz de se corrigir [1].

O ritmo do sistema crânio-sacral pode ser captado de uma maneira bastante similar aos ritmos dos sistemas respiratório e  cardiovascular. Porém diferente destes sistemas do corpo, tanto a avaliação como a correção do sistema crânio-sacral pode ser alcançada através da palpação. A Terapia Crânio-Sacral é usada para uma miríade de problemas de saúde, incluindo dores de cabeça, dor cervical e dor nas costas, disfunção de ATM, fadiga crônica, dificuldades de coordenação motora, problemas oculares, depressão endógena, hiperatividade, desordem de déficit de atenção, desordens do sistema nervoso central e muitos outros problemas [2].

Atualmente os profissionais contam com a Terapia Crânio-Sacral para melhorar o funcionamento do sistema nervoso central, eliminar os efeitos negativos do estresse, fortalecer a resistência à doenças, e melhor a saúde de um modo geral [3].

Usando um toque suave geralmente inferior a 5 gramas, ou aproximadamente o peso de um níquel, profissionais liberam restrições no sistema crânio-sacral para melhorar o funcionamento do sistema nervoso central. Por complementar os processos naturais de cura do corpo, a TCS está cada vez mais sendo usada como uma medida preventiva de saúde por sua capacidade de manter a resistência a doenças, e é eficiente para uma ampla gama de problemas médicos associados com dores e disfunção, incluindo: enxaquecas; dores cervicais e nas costas crônicas; disfunções de coordenação motora; cólica; autismo; desordens do sistema nervoso central; problemas ortopédicos; traumatismos cranianos e lesões da medula espinhal; escoliose; desordens infantis; desordens de aprendizado; fadiga crônica; dificuldades emocionais; estresse e problemas relacionados a tensões; fibromialgia e outras desordens de tecido conjuntivo; síndrome da articulação temporomandibular (ATM); desordens neurovasculares ou imunológicas; desordem do estresse pós traumático; disfunção pós-operatória [4].

O Upledger Institute também defende e ensina a "manipulação visceral," um sistema bizarro de tratamento cujos praticantes alegam detectar "movimentos rítmicos" dos intestinos e outros órgãos internos e manipulá-los para "melhorar o funcionamento de órgãos individuais, os sistemas aos quais os órgãos pertencem, e a integridade estrutural do corpo inteiro." [5]

Crenças Esquisitas

Algumas das crenças de Upledger estão entre as mais estranhas que já encontrei. No capítulo 2 de seu livro, CranioSacral Therapy: Touchstone of Natural Healing, ele descreve, como descobriu e comunica-se com o que ele chama de o "Médico Interior" do paciente:

Por conectar-se profundamente com um paciente enquanto fazia a terapia crânio-sacral, foi possível na maioria dos casos entrar em contato com o Médico Interior do paciente. Também tornou-se claro que o Médico Interior pode tomar qualquer forma que o paciente pudesse imaginar -- uma imagem, uma voz ou uma sensação. Normalmente uma vez que a imagem do Médico Interior aparecia, estava pronta para dialogar comigo e responder perguntas sobre as causas subjacentes dos problemas de saúde do paciente e o que pode ser feito para solucioná-los. Também ficou claro que quando a conversa com o Médico Interior era autêntica, o sistema crânio-sacral entrava em um padrão de sustentação [6].

O capítulo prossegue descrevendo o atendimento de Upledger a um bebê francês  de 4 meses que estava "mole como uma boneca de trapo." Embora o bebê nunca tenha sido exposto ao idioma inglês, Upledger decidiu ver se o "Médico Interior" do bebê se comunicaria com ele através do sistema crânio-sacral:

Pedi alto em inglês que o ritmo crânio-sacral parasse se a resposta a uma pergunta fosse "sim" e não parasse se a resposta fosse "não." O ritmo parou por cerca de dez segundos. Considerei isso como uma indicação de que eu estava sendo compreendido. Perguntei  então se era possível durante esta sessão que o ritmo apenas parasse em resposta as minhas perguntas e não por outras razões, como posição do corpo, etc., O ritmo parou novamente. Isso me deu mais confiança. Prossegui [6].

Usando "respostas do tipo sim e não", Upledger disse, descobriu que o problema era "uma toxina que foi inalada pela mãe. . . por um período de aproximadamente duas horas e meia enquanto limpava um antigo motor de automóvel" durante o quarto mês de gravidez. Depois "perguntando a respeito de vários detalhes" sobre o que deveria fazer, foi dito a Upledger que "bombeasse os ossos parietais que formam uma grande parte do telhado do crânio, e que passasse bastante da minha energia através do cérebro a partir da parte de trás do crânio até a frente." Conforme fazia isso, Upledger freqüentemente verificava com "Médico Interior" do bebê. Após cerca de uma hora, Upledger disse, o bebê começou a se mover normalmente [6].

Em julho de 2003, uma quiroprático da Pensilvânia foi condenada por fraude no seguro em conexão com a morte de uma mulher epiléptica de 30 anos  que ela tratou com terapia cranial. A documentação do tribunal indicou que a paciente morreu por convulsões severas após seguir o conselho da quiroprática para que interrompesse o uso de sua medicação anticonvulsivante. A fraude envolvia o envio de pedidos falsos de seguro descrevendo o "equilíbrio meningeal" de Upledger como manipulação espinhal [7]. 

Sistemas Relacionados

O osteopata britânico Robert Boyd, quem desenvolveu uma variante chamada por ele de Terapia Bio Cranial, a qual  -- de acordo com o site da International Bio Cranial -- é "extremamente útil" para "síndrome da fadiga crônica (CFS); varicoses e úlceras varicosas; zumbidos; prolapso de bexiga; desordens da próstata; síndrome de Menieré; distúrbios cardiovasculares incluindo hipertensão, angina; desordens da pele (psoriasis, eczema, acne, etc); desordens femininas (disminorréia, SPM (TPM), menorragia, etc); artrite e desordens reumáticas; fibromialgia e esporões calcâneos; desordens gástricas(Hérnia de hiato, ulcerações, colite); asma e um série de desordens brônquicas incluindo bronquiectasia e enfisema." [8]

A técnica sacro-occiptal (SOT) combina teorias sobre a pressão do fluido espinhal com teorias quiropráticas sobre "pressão nervosa" como uma causa de doenças. Os quiropráticos que defendem a SOT alegam detectar "bloqueios" ao sentir o crânio e a coluna vertebral e medir os comprimentos das pernas [9].

O Ponto de Vista Científico

Eu não acredito que a terapia crânio-sacral tenha qualquer valor terapêutico. Sua teoria subjacente é falsa porque os ossos do crânio se unem por volta do fim da adolescência e nenhuma pesquisa jamais demonstrou que manipulação manual possa mover os ossos individuais do crânio [10]. Tampouco acredito que "os ritmos do sistema crânio-sacral podem ser sentidos tão claramente quanto os ritmos dos sistemas respiratório e cardiovascular", como é alegado por outro livreto do Upledger Institute [11]. O cérebro de fato pulsa, mas isto está exclusivamente relacionado ao sistema cardiovascular [12], e nenhuma relação entre pulsação do cérebro e saúde geral foi demonstrada.

Há alguns anos, três fisioterapeutas que examinaram os mesmos 12 pacientes diagnosticaram "taxas crânio-sacrais" significativamente diferentes, que é o resultado esperado ao se medir um fenômeno inexistente [13]. Outro estudo comparou a "taxa crânio-sacral" medida na cabeça e pés de 28 adultos por dois examinadores e descobriu que os resultados foram altamente inconsistentes [14].

Em 1999, após fazer uma revisão abrangente dos estudos publicados, o British Columbia Office of Health Technology Assessment (BCOHTA) concluiu que a teoria é inválida e que os praticantes não podem medir de maneira confiável o que alegam estar modificando. O relatório de 68 páginas conclui que "há evidência insuficiente para recomendar a terapia crânio-sacral aos pacientes, profissionais, ou convênios médicos". [15]

Em 2002, dois professores de ciência básica da Faculdade de Medicina Osteopática da University of New England concluíram:

Nossos próprios resultados publicados previamente sugerem que o mecanismo proposto para osteopatia cranial é inválido e que a confiabilidade do exame interior (e, portanto, do diagnóstico) é de aproximadamente zero. Desde que nenhum resultado de estudos adequadamente randomizados, cegos e placebo-controlados foi publicado, concluímos que a osteopatia cranial deveria ser retirada dos currículos de faculdades de medicina osteopática e dos exames de licenciamento de osteopatas [10].

Eu certamente concordo! Aliás, acredito que a maioria dos praticantes de terapia crânio-sacral tem um julgamento tão pobre que deveriam perder suas licenças.

Referências

  1. Discover CranioSacral Therapy. Undated flyer distributed in 1997 by the Upledger Institute.
  2. Upledger CranioSacral Therapy I. Brochure for course, November 1997.
  3. For serious education in complementary care . . . come to the source. Brochure for course, Upledger Institute, Aug 2001.
  4. CranioSacral Therapy. Upledger Institute Web site, accessed Aug 15, 2001.
  5. Visceral manipulation. Upledger Institute Web site, accessed Aug 15, 2001.
  6. Upledger JE. CranoSacral Therapy: Touchstone of Natural Healing. Berkeley, Caliifornia: North Atlantic Books, 1999, p 51-58.
  7. Barrett S. Bizarre therapy leads to patient's death. Chirobase, July 7, 2003.
  8. Bio Cranial Therapy in action. International Bio Cranial Web site, accessed Aug 21, 2001.
  9. Homola S. Bonesetting, Chiropractic, and Cultism, 1963.
  10. Hartman SE, Norton JM. Interexaminer reliability and cranial osteopathy. Scientific Review of Alternative Medicine 6(1):23-34, 2002.
  11. Workshop catalog, Upledger Institute, 1995.
  12. Ferre JC and others. Cranial osteopathy, delusion or reality? Actualites Odonto-Stomatologiques 44:481-494, 1990.
  13. Wirth-Pattullo V, Hayes KW. Interrater reliability of craniosacral rate measurements and their relationship with subjects' and examiners' heart and respiratory rate measurements. Physical Therapy 74:908-16, 1994.
  14. Rogers JS and others. Simultaneous palpation of the craniosacral rate at the head and feet: Intrarater and interrater reliability and rate comparisons. Physical Therapy 78:1175-1185, 1998.
  15. Kazanjian A and others. A systematic review and appraisal of the scientific evidence on craniosacral therapy. BCOHTA, May 1999]

Quackwatch em português ||| Osteopatia Visceral e Craniossacral

Artigo atualizado no site original em 7 de julho de 2003.

Publicado em português em 29 de novembro de 2003.
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