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Lidando com os Desafios ao Ceticismo

Bob Steiner

Quando os céticos falam, especialmente perante a uma grande platéia, nossos pontos de vista são freqüentemente desafiados. Aqui estão três exemplos de como tenho lidado com tais desafios.

As Melhores Credenciais

Vários anos atrás, fiz uma palestra para um grupo que tinha uma grande proporção pessoas que acreditavam no paranormal. Minha apresentação foi intitulada "ESP - Uma Demonstração". Fiz o papel de um médium, e convenci a grande maioria da platéia de que eu realmente era um médium. Então contei-lhes que era um mágico profissional, e que tudo o que eles viram fora feito por meios normais.  [N.T.: ESP= extrasensory perception; percepção extra-sensorial]

No período após a apresentação dedicado a perguntas e respostas, alguém perguntou a respeito de minha formação. Indaguei: "Você está pedindo minhas credenciais?" A pessoa respondeu que sim.

Rapidamente avaliei a situação. Respondo sua pergunta da maneira esperada? Hummmm. Sou membro do CSICOP, fui presidente nacional da Society of American Magicians (Sociedade de Mágicos Americanos), sou da Comissão de Conselheiros da National Association of Bunco Investigators (Associação Nacional de Investigadores de Trapaças), sou da Comissão de Diretores do National Council Against Health Fraud (Conselho Nacional Contra Fraude na Saúde), e mais. Hummmm.

Não. Decidi seguir uma abordagem diferente. Repliquei: "Uma credencial significativa é o que foi capaz de convencer muitos nesta platéia de que eu realmente era um médium. Mas para responder especificamente a sua pergunta: Não há credencial alguma em um campo que estuda algo que não existe!"

Aconteceu que eles não souberam como argumentar contra ou refutar esta declaração. 

Astrologia é Fanatismo

Eu era fascinado pela astrologia. Quando desafiado, podia citar estudos que tinham fracassado em validar a existência da astrologia. Podia explicar que a atração gravitacional do próprio hospital no momento do nascimento é maior sobre o bebê do  que a soma da atração gravitacional de todas as estrela e todos planetas, com exceção apenas do sol e da lua. Tinha uma estimativa do número de estrelas no universo, fornecido para mim por um brilhante astrônomo (obrigado, Andy Franknoi). Isto me possibilitou a mostrar o absurdo de se achar que uma constelação de estrelas governavam a vida inteira de alguém, por toda a vida. 

Eu era um convidado freqüente do The Jim Eason Show, em San Francisco. Jim é um apresentador de um programa de entrevistas na rádio. Ele era familiar com meus pontos de vista, e tinha ouvido algumas declarações que eu tinha feito a respeito da astrologia. Em uma das apresentações em seu programa, a primeira pergunta que Jim me fez foi: "Bob, você tem definido a astrologia em apenas três palavras. Quais são estas três palavras?" 

Respondi: "Astrologia é fanatismo!" E todas as linhas de telefone tocaram. A seguir começou uma entrevista ao vivo. Nunca houve tantos ouvintes querendo entrar em ação. 

Aquilo foi um momento desafiador em minha educação. O afiado conhecimento de Jim do que funciona bem com uma platéia foi passado para mim durante aquele programa. Percebi que aquelas três palavras trouxeram mais reação e levantaram mais paixão nos ouvintes do que meus comentários anteriores no sentido de que "A astrologia tem sido freqüentemente testada no laboratório científico,  e tem consistentemente falhado em demonstrar sua validade". Jim pegou um comentário de improviso  que eu tinha feito, reconheceu sua importância, e elevou-o para o papel central, aonde ele deveria estar. Obrigado, Jim Eason. 

A Vidente que Errou

Uma auto proclamada vidente fez uma palestra a um grupo em San Francisco. Fui convidado a comparecer, não como um apresentador, mas como um membro da platéia. A mulher tinha pessoas escrevendo perguntas em tiras de papel. Os papéis dobrados foram passados para a frente da sala. Eu observei cuidadosamente mas não detectei nenhum truque. Além de se usar cúmplices, o que certamente tinha que ser considerado, não pude pensar em alguma outra maneira de que o apresentador pudesse saber o que estava escrito nos papéis.

Então veio a sua demonstração. Ela assumiu uma posição como se estivesse respondendo as perguntas que ela tinha lido de maneira "clarividente" dos papéis que ela nunca havia -- aparentemente -- tocado e aos quais ela nunca teve acesso. Então ela decidiu me desafiar. Ela perguntou, e ainda, instigou-me a subir e explicar para a platéia como ela havia trapaceado, e como ela tivera acesso à informação nas tiras dobradas de papel.

Eu recusei seu convite. Mas ela insistiu. Aquela seqüência se repetiu mais duas vezes. Finalmente eu disse: "Este é o seu show. Eu sou um membro da platéia. Não quero subir e assumir o comando do palco." Naquilo, seu convite se transformou em uma exigência e um desafio. Ela contou a platéia que eu era presidente da Bay Area Skeptics, que eu era um mágico profissional, e que eu "sempre dizia as pessoas" que os videntes usam truques para saber o que está escrito em tiras dobradas de papel.

Assim que fui para frente da sala, lembrei a ela que não queria subir, e que estava subindo devido a sua insistência. Mostrei que ela tinha "adivinhado" que alguém no canto esquerdo de trás da sala tinha perdido ou não lembrava aonde guardou algumas jóias. Ninguém respondeu afirmativamente a sua declaração. Eu mostrei que ela então estendeu sua declaração para "alguém na platéia". Eu expliquei para a platéia quão ampla e geral era sua declaração: Em uma sala com 100 pessoas, era altamente provável que alguém tivesse perdido uma peça de jóia no último mês. Entretanto, das 100 pessoas na platéia, nenhuma delas tinha perdido qualquer jóia. Então alguém no canto direito da frente da sala disse: "No mês passado eu perdi as chaves do meu carro". Eu então avaliei sua "leitura": "Aquilo foi um erro!"

Apontei uma mulher na platéia para quem a vidente tinha feito uma leitura. A leitura foi de que a mulher estava tendo problemas com uma mulher mais jovem em sua vida: talvez sua irmã mais nova, ou talvez sua filha. Eu chamei a atenção para o fato de que esta também era uma declaração muito ampla e geral -- uma declaração que se aplicaria a um grande número de pessoas em virtualmente qualquer platéia. Eu então declarei, como a mulher havia declarado, que sua mensagem escrita estava perguntando sobre seu futuro emprego: "Ela teria um aumento? Ela receberia uma promoção?"

Eu disse a "vidente": "Não, você não trapaceou. Não, você não teve acesso as perguntas das tiras dobradas de papel. Mas você errou! Você não respondeu as perguntas das folhas. Não havia nada para eu explicar."

Então, retornando para meu método de tentativa-e-acerto de designar um resumo enérgico, eu expliquei para a platéia: "Antes mesmo de vocês começarem a tentar a explicar como algo aconteceu, vocês devem primeiro determinar se aquilo aconteceu. Neste caso, simplesmente não aconteceu. Ela não respondeu àquilo que estava nas tiras de papel. Não havia nada para eu explicar".

Ela não havia trapaceado. Ela simplesmente tinha errado.

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Bob Steiner é fellow do CSICOP e fundador da Bay Area Skeptics. Seu livro Don't Get Taken! analisa como as pessoas são enganadas por astrólogos, místicos, médiuns, curandeiros pela fé, esquemas de pirâmides, e toda sorte de vigaristas e outros trapaceiros de rua.

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