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LEITURAS DA ISTOÉ
Cinco falácias e um funeral

Francisco Stefano Wechsler, M.S., Ph.D.

A pretexto ou na ilusão de orientar o leitor, o artigo "O melhor de dois mundos", publicado na revista IstoÉ de 3/9/03, perpetua mitos, confunde alhos com bugalhos, promove o charlatanismo e consegue deixar o leitor ainda mais desinformado acerca das chamadas terapias "alternativas" ou "complementares".

Falácia Primeira: as alternativas.

Em medicina, "alternativa" implica a possibilidade de escolha entre dois ou mais tratamentos com eficácia comprovada. Para o tratamento duma pneumonia bacteriana, o médico poderá escolher entre vários antibióticos, dependendo da existência ou não de alergia do paciente a algum deles, da espécie e cepa de bactéria, e até do preço do remédio. Um preparado homeopático ou floral de Bach, por exemplo, não apresentam eficácia contra a bactéria, portanto não constituem "alternativa". Em rigor, as terapias "alternativas" não são alternativa comprovada a nenhum tratamento médico.

Falácia Segunda: a complementaridade.

"Complementar" indica que o tratamento em questão ajuda ou reforça a ação de outro tratamento. Se o paciente com pneumonia estiver desidratado, o médico poderá prescrever reposição hidroeletrolítica por via endovenosa, que constitui complemento ao antibiótico. A homeopatia ou o floral não complementam nada, pois em nada auxiliam. O termo "complementar" apareceu modernamente como substituto ao "alternativo", em grande parte para livrar os proponentes de processos judiciais. Assim, se o paciente sofrer de rinite alérgica, um distúrbio relativamente leve e cíclico, recorre-se à aromaterapia ou reflexologia, e melhoras no quadro alérgico serão falsamente atribuídas a estas terapias. Se o paciente tiver câncer, o terapeuta "responsavelmente" recomenda-lhe que procure um oncologista; as terapias em tela serão mantidas como "apoio" ao tratamento médico.

Falácia Terceira: o convencionalismo da medicina.

O adjetivo "convencional" é freqüentemente usado para caracterizar a medicina científica como retrógrada e apegada a cânones ultrapassados, em contraste às demais terapias, caracterizadas como flexíveis e inovadoras. A verdade é precisamente o oposto: a medicina científica está em constante evolução, e conceitos admitidos como válidos podem ser subitamente derrubados por novos experimentos. Por outro lado, muitas das terapias "alternativas" baseiam-se em tratados escritos há centenas de anos e periodicamente recompilados, nos quais afirmações vetustas são aceitas sem questionamento, e autoridade, antigüidade e tradição valem mais que fatos estabelecidos por experimentação cuidadosa.

Falácia Quarta: a inversão do ônus da prova.

A autora escreve: "(...) Até que se mostre que certas terapias não funcionam, a quantidade de usuários continuará se multiplicando." Eis uma armadilha em que caem freqüentemente leigos e até especialistas. O objetivo da ciência não é provar que um tratamento não funciona, assim como não se prova que não há mulas-sem-cabeça ou sacis-pererês. Pelo contrário, para que um tratamento seja considerado válido, é preciso demonstrar, mediante experimentos controlados, que ele funciona. Os proponentes de terapias "alternativas", quando confrontados com séries de ensaios em que a eficácia do tratamento não é demonstrada, amiúde argumentam que a eficácia existe, porém os experimentos não foram suficientemente sensíveis, ou não é possível medir os efeitos esperados mediante métodos "tradicionais" ou "ultrapassados". (Resta indagar então como os proponentes destas terapias fundamentam suas afirmações de eficácia.) Por este raciocínio capcioso, poder-se-ia concluir que qualquer tratamento, seja ele oriundo da medicina científica ou de magia negra, merece ser usado, pois sua ineficácia jamais será provada.

Falácia Quinta: a comprovação pela regulamentação.

A única maneira de comprovar a eficácia e a segurança de um tratamento é mediante experimentação cuidadosa e publicação dos resultados em periódicos científicos. Estes resultados serão submetidos ao escrutínio da comunidade científica, para que sua lisura e repetibilidade sejam examinadas.

O reconhecimento de uma terapia por determinada entidade, como a Associação Brasileira de Medicina Complementar, nada comprova. Quando a Food and Drug Administration (FDA) ou a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizam a venda de novo produto farmacêutico, elas se louvam em evidência científica; não é a autorização que comprova a eficácia, mas é a comprovação de eficácia que leva estes órgãos a autorizar a venda. Esta autorização serve como um sinal verde para os médicos, dizendo: revisamos a literatura científica sobre o assunto, e ela indica que o produto é eficaz e relativamente seguro, podendo, pois, ser receitado. (Curiosa e injustificadamente, os medicamentos homeopáticos são dispensados desta comprovação.)

Aceitar a regulamentação como prova de eficácia equivale a acreditar que seja possível curar câncer por decreto legislativo. De forma análoga, o reconhecimento de uma especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) não confere a esta base científica; pelo contrário, é a base científica de um ramo do conhecimento médico que leva – ou deveria levar – o CFM a reconhecê-lo como especialidade.

Infelizmente, o CFM reconheceu a homeopatia como especialidade médica, sem levar em conta que as alegações desta não só carecem de comprovação científica, como também contrariam as leis conhecidas da física, da química, da farmacologia, da fisiologia e da epidemiologia. Esta injustificável decisão dá "status" de ciência à anticiência, dissemina a confusão entre médicos e leigos, e abre caminho para que amanhã a iridologia, a reflexoterapia, a cromoterapia, a prescrição de minerais e vitaminas com base em avaliações "bioenergéticas" e outras tantas doutrinas também se tornem especialidades médicas.

O artigo ademais apresenta uma lista de terapias, com supostas indicações e limites. O melhor que se pode dizer das terapias arroladas é o seguinte: as evidências relativas à acupuntura, obtidas em ensaios controlados, são muito menos abundantes e claras do que nos gostariam de fazer crer os adeptos desta técnica; resultados contraditórios sugerem possível eficácia no tratamento de dores e náuseas. Quanto à ioga, admite-se que funcione como técnica de relaxamento. Afirmações como "a acupuntura libera a energia circulante do organismo"; "os florais destinam-se exclusivamente ao campo energético"; ou "a aromaterapia serve para tratar gripes e resfriados" não têm nenhum respaldo científico.

Funeral

Quero crer que as intenções do artigo foram as melhores possíveis. Não obstante, a informação correta, o raciocínio crítico e o esclarecimento do público, deveres essenciais do jornalista, foram mortos e esquartejados, tendo sido seu funeral realizado de forma impressa e eletrônica. Meus pêsames, e que a ignorância lhes seja leve.

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Francisco Stefano Wechsler é Engenheiro-agrônomo, M.S., Ph.D., Departamento de Produção e Exploração Animal, FMVZ-Unesp, Botucatu, SP; e membro do Movimento Medicina Responsável.

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Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa.
Publicado no Quackwatch em 28 de dezembro de 2003.

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