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Glicosamina para Artrite

Stephen Barrett, M.D.

Osteoartrite (OA), o tipo mais comum de artrite, é uma doença degenerativa das articulações. Embora algumas vezes capaz de causar inflamação aguda, é mais comumente uma doença de "desgaste" envolvendo degeneração da cartilagem das juntas e a formação de esporão ósseo dentro de várias juntas. Trauma nas articulações, uso ocupacional repetitivo, e obesidade são fatores de risco. A maioria das pessoas acima dos 60 anos de idade tem essa doença em alguma extensão, com aproximadamente 16 milhões de afligidos exigindo atenção médica. O objetivo principal do tratamento é o alívio da dor. 

Nos últimos anos, a glicosamina e a condroitina têm sido amplamente promovidas como um tratamento para OA. Pensa-se que a glicosamina, uma glicosaminaglicana, promove a formação e reparação da cartilagem. Acredita-se que a condroitina, um carboidrato componente da cartilagem, promova retenção hídrica e elasticidade e iniba as enzimas que destróem a cartilagem. Ambos os componentes são fabricados pelo corpo. 

Achados de Pesquisa

Estudos de laboratório sugerem que a glicosamina pode estimular a produção de proteínas produtoras de cartilagem. Outra pesquisa sugere que a condroitina pode inibir a produção de enzimas destruidoras de cartilagem e também combater a inflamação. Suplementos de glicosamina são derivados de conchas de mariscos, suplementos de condroitina são geralmente fabricados a partir da cartilagem de vaca. Estudos em humanos têm mostrado que pelo menos um deles pode aliviar a dor e a rigidez proveniente da artrite com menos efeitos colaterais que drogas convencionais utilizadas no tratamento da artrite. Porém permanecem dois problemas. Primeiro, ainda não há pesquisa de alta qualidade ou longa o suficiente para determinar se seu uso é prático. Segundo, devido ao fato de que a fabricação de suplementos alimentares não é regulada, a qualidade do produto (especialmente dos produtos de condroitina) não está assegurada. 

Alguns estudos publicados comparando glicosamina ou condroitina com várias medicações padrão mostraram que as drogas funcionam mais rápidamente que os suplementos. Mas também descobriram que vários meses após o tratamento terminar, o efeito analgésico dos suplementos permaneceu mais forte.

Em março de 2000, um estudo do Journal of the American Medical Association concluiu:

Ensaios [trials] de preparações de glicosamina e condroitina para sintomas de OA demonstraram efeitos de moderados a extensos, mas a qualidade dos resultados e provavelmente viés de publicação sugerem que esses efeitos são exagerados. Contundo, algum grau de eficácia parece provável para essas preparações [1].

Um editorial que acompanhava o estudo advertia: 

A exemplo do que ocorre com muitos suplementos que atualmente são amplamente rotulados como benéficos para desordens comuns mas de difícil tratamento, o entusiasmo promocional freqüentemente supera de longe a evidência científica que sustenta o uso clínico. Até que estudos de alta-qualidade, como o estudo dos National Institutes of Health, estejam finalizados, trabalhos como esse [a meta-análise] são a melhor esperança para proporcionar aos médicos informações necessárias para aconselhar seus pacientes sobre os riscos e benefícios dessas terapias [2].

Em 2001, o Lancet publicou os resultados de um ensaio clínico duplo-cego de três anos envolvendo 212 pessoas com osteoartrite que usaram ou glicosamina ou um placebo. Os pesquisadores descobriram que os sintomas melhoram de 20% a 25% no grupo da glicosamina, mas pioraram ligeiramente no grupo placebo. As radiografias mostraram que estreitamento grave do espaço articular do joelho -- um sinal de progressão da doença -- ocorreu em apenas metade tanto dos ppacientes que tomaram glicosamina como dos que receberam placebo [3]. Entretanto, o Medical Letter relatou que as radiografias foram padronizadas de maneira questionável; havia pouca correlação entre as mudanças do espaço articular e os sintomas; e não havia nenhuma diferença entre os grupos de glicosamina e placebo no uso de medicação padrão para "resgatar" pacientes [4]. 

Já para a condroitina, uma análise recente dos resultados combinados de sete ensaios controlados, randomizados indicou que o suplemento pode reduzir os sintomas da osteoartrite e melhorar a função em uma média de cerca de 50%, embora os estudos tenham falhas que podem exagerar os benefícios. 

Produtos

Nos Estados Unidos, produtos de glicosamina e condroitina são comercializados como "suplementos alimentares". A glicosamina está disponível em muitas formas, incluindo sulfato de glicosamina, hidrocloreto de glicosamina (HCl), e N-acetilglicosamina (NAG), e também pode conter um sal de cloreto de potássio ou cloreto de sódio. Entretanto, parece que não há nenhuma evidência conclusiva de que uma forma seja melhor do que a outra [5]. Condroitina é tipicamente vendida como sulfato de condroitina. Em dezembro de 1999 e janeiro de 2000, o ConsumerLab.com testou 25 marcas de glicosamina, condroitina e uma combinação de produtos e descobriu que (a) todos os 10 produtos constituídos apenas de glicosamina passaram no teste, porém 2 produtos que continham apenas condroitina e 6 de 13 produtos combinados não foram aprovados (porque seus níveis de condroitina eram muito baixos). Em janeiro de 2001, um dos produtos combinados foi removido porque seu nível de magnésio foi julgado como sendo alto demais. 

Em 2001, o Consumer Reports avaliou 19 produtos e relatou: 

A maioria . . . estava razoavelmente dentro dos padrões, trazendo pelo menos 90% da quantidade de glicosamina ou condroitina anunciada no rótulo, desse modo satisfazendo um novo padrão para os suplementos proposto pela U.S. Pharmacopeia, a qual estabelece padrões para drogas e está propondo-os para para os suplementos. Porém quatro produtos -- Now Double Strength Glucosamine & Chondroitin, ArthxDS Glucosamine Chondroitin, Solgar Extra Strength Glucosamine Chondroitin Complex e Now Chondroitin Sulfate -- não conseguiram alcançar esse padrão. Dois produtos -- Solgar Extra Strength Glucosamine Chondroitin Complex e Twinlab CSA (Chondroitin Sulfate) -- recomendaram uma quantidade muito pequena de comprimidos diários para suprir a dose usada em ensaios clínicos de sucesso. Diversos outros listavam o número recomendado de comprimidos de uma forma que permitia aos consumidores tomarem uma dose que podia ser inadequada [6]. 

Em 2001, a Vital Nutrients recolheu dois produtos (Vital Nutrients Joint Ease e Verified Quality Joint Comfort) porque foi encontrado ácido aristolochic no seu conteúdo, uma substância que pode causar toxicidade renal e câncer [7]. 

Considerações Quanto a Segurança

Nenhum estudo até agora mostrou quaisquer efeitos colaterais sérios seja com a glicosamina ou com a condroitina. Os efeitos colaterais mais comuns são aumento de gases intestinais e fezes amolecidas. Entretanto, pesquisas com animais levantaram a possibilidade de que a glicosamina possa piorar a resistência à insulina, uma causa importante do diabetes. Até agora, estudos com humanos não confirmaram esse risco. Todavia, pessoas com diabetes deveriam monitorar seu nível de açúcar no sangue de uma maneira mais rígida quando usar esses suplementos. Não houve nenhum relato de reações alérgicas à glicosamina. Mas uma vez que é produzida a partir de conchas de crutáceos e moluscos, pessoas que são alérgicas a frutos do mar deveriam usá-la com cuidado, observar reações ou evitá-la completamente. Como também para a condroitina, que pode causar hemorragia em pessoas que tem distúrbios hemorrágicos ou que usam medicamentos anti-coagulante. 

Autoridades Discordam

Autoridades médicas respeitadas consideram o uso desses compostos como plausível e concordam que há a necessidade de mais pesquisas para situa-los em uma perspectiva apropriada. Entretanto, existem discordâncias quanto a praticidade de usá-la agora. As organizações em que tenho mais confiança dão conselhos diferentes. A Consumer Reports declara: 

A segurança e a eficácia a longo prazo da glicosamina e condroitina permanecem incertas. Porém, nossos consultores médicos dizem que há evidência suficiente para concluir que produtos contendo as quantidades de glicosamina, condroitina, ou ambas que funcionaram em ensaios clínicos podem ser válidos como uma tentativa para pessoas com osteoartrite -- particularmente se elas estão apresentando ou é provável que venham a apresentar efeitos colaterais significativos com analgésicos convencionais. (Essas quantidades foram de 1.500 mg por dia de sal de glicosamina -- glicosamina ligada a outra molécula -- e 1.200 mg de sal de condroitina.)

Embora ninguém saiba qual formulação funciona melhor, faz sentido tentar uma das combinações menos dispendiosas, tais como Puritan's Pride Maximum Strength Glucosamine Chondroitin ou Spring Valley Glucosamine Chondroitin Double Strength; elas forneçam os dois ingredientes em um custo menor que os produtos contendo apenas condroitina e, em muitos casos, e em um custo similar aos dos produtos contendo apenas glicosamina. Para aqueles que estão preocupados principalmente com o custo, entretanto, Spring Valley Glucosamine Complex foi o produto mais barato que testamos (embora para conseguir a dosagem do ensaio clínico, você precisa ignorar a faixa de comprimidos diários recomendada no rótulo e tomar o máximo, três por dia).

Pode levar dois meses . . . para produzir qualquer melhora significativa. Se você não perceber nenhum efeito com seu uso, provavelmente é melhor tentar uma abordagem diferente [6]. 

A Medical Letter, que é a publicação de aconselhamento farmacológico mais respeitada da profissão médica, é mais conservadora:

A glicosamina com ou sem condroitina pode ter algum efeito benéfico sobre a osteoartrite, e estudos com mais de 3 anos de duração não encontraram mais efeitos colaterais do que com placebo, mas a maioria dos consultores da Medical Letter estão céticos. Se a glicosamina oferece alguma vantagem sobre drogas mais bem estabelecidas como o acetaminofeno, AINES tradicionais ou inibidores seletivos da Cox-2 permanece para ser determinado. Como com outros suplementos alimentares, a qualidade e a pureza dos ingredientes pode variar [4]. 

Um ensaio clínico que deve adicionar consideravelmente ao conhecimento médico sobre glicosamina e condroitina recebeu financiamento e está agora recrutando pacientes. Será um estudo de 24 semanas, placebo-controlado, duplo-cego que avaliará o efeito sobre dor de joelho osteoartrítico do cloreto de glicosamina, condroitina, uma combinação dos dois, e celicoxib entre 1588 participantes em 13 centros por todo o país por um período de 27 meses [8]. A estimativa da data de conclusão é em março de 2005. 

Concluindo

Decisões quanto ao uso da glicosamina ou da condroitina devem ser baseadas em informações que estão longe de estarem completas. Além disso, o controle de qualidade do produto é um problema significativo. Eis meu conselho:

Referências

  1. McAlindon TE and others. Glucosamine and chondroitin for treatment of osteoarthritis: A systematic quality assessment and meta-analysis JAMA 283:1469-1475, 2000. [Full-text version is accessible online for JAMA subscribers.]
  2. Tanveer E, Anastassiades TP. Glucosamine and chondroitin for treating symptoms of osteoarthritis: Evidence is widely touted but incomplete. JAMA 283:1483-1484, 2000. [Full-text version is accessible online for JAMA subscribers.]
  3. Reginster JY and others. Long-term effects of glucosamine sulfate on osteoarthritis progression: a randomized, placebo-controlled trial. Lancet 357:251-256, 2001.
  4. Update on glucosamine for osteoarthritis. Medical Letter 43:111-112, 2001.
  5. Product Review: GLUCOSAMINE and CHONDROITIN. ConsumerLab Web site, accessed Jan 22, 2002.
  6. Joint remedies. Consumer Reports, Jan 2002.
  7. Vital Nutrients recalls Joint Ease & Verified Quality Brand Joint Comfort Complex because of adverse health risk associated with aristolochic acid. News release, May 24, 2001.
  8. Study of the Efficacy of Glucosamine and Glucosamine/Chondroitin Sulfate in Knee Osteoarthritis. NIH Web site, accessed Jan 22, 2002.

Quackwatch em português

Atualizado em 10 de agosto de 2002.

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