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Terapia Ortomolecular

Stephen Barrett, M.D.

A "terapia ortomolecular" é definida por seus proponentes como "o tratamento de doenças através da variação das concentrações de substâncias normalmente presentes no corpo humano". Seus proponentes alegam que muitas doenças são causadas por desequilíbrios moleculares que são corrigíveis pela administração das moléculas nutritivas "certas" no momento certo. (Orthos é a palavra grega para "certo/direito".)

A terapia ortomolecular data do início da década de 1950 quando alguns psiquiatras começaram a adicionar doses altas de nutrientes aos seus tratamentos de problemas mentais graves. A substância original era a vitamina B3 (ácido nicotínico ou nicotinamida) e a terapia era denominada "terapia de megavitamina". Mais tarde o regime do tratamento foi expandido para incluir outras vitaminas, minerais, hormônios e dietas, qualquer uma delas pode ser combinada com a terapia medicamentosa convencional e com os tratamentos de eletrochoque. Atualmente cerca de uma centena de médicos norte-americanos usam esta abordagem para tratar uma variedade de distúrbios, tanto mentais como físicos. 

Durante a década de 80, por exemplo, o Princeton Brain Bio Center (sem nenhuma relação com a Princeton University), em Skillman, Nova Jersey, vendia seus tratamentos "nutricionais" para alcoolismo, alergias, artrite, autismo, epilepsia, hipertensão, hipoglicemia, enxaquecas, depressão, dificuldades de aprendizado, retardo mental, desordens mentais e metabólicas, problemas cutâneos e hiperatividade [1]. Seus serviços incluíam exames laboratoriais que a maioria dos médicos não consideraria necessários ou úteis para diagnosticar estas desordens. 

Análise Crítica

Diversas equipes de especialistas examinaram as alegações dos proponentes da "ortomolecular" e concluíram que elas não têm fundamentos. 

No início da década de 70, uma força-tarefa especial da American Psychiatric Association investigou as alegações dos psiquiatras que adotaram a abordagem ortomolecular. A força-tarefa apontou que estes profissionais usaram métodos não convencionais não apenas no tratamento mas também para diagnosticar. Sua conclusão foi provavelmente a declaração mais dura jamais publicada por uma equipe de revisão científica: 

Esta revisão e crítica examinou cuidadosamente a literatura produzida pelos proponentes de megavitaminas e por aqueles que têm tentado repetir seus trabalhos básicos e clínicos. Conclui com relação a isto que a credibilidade dos proponentes de megavitaminas é baixa. Sua credibilidade é ainda mais diminuída por uma recusa constante ao longo da última década em realizar experimentos controlados e em publicar seus resultados novos de uma maneira cientificamente aceitável. Sob estas circunstâncias esta força-tarefa considera a publicidade poderosa, a qual eles vinculam via rádio, pela imprensa leiga e por livros populares, usando frases de efeito que na verdade são denominações inapropriadas como "terapia de megavitaminas" e "tratamento ortomolecular", como sendo deplorável [2].

O Comitê Consultivo de Pesquisa do National Institute of Mental Health revisou dados científicos pertinentes durante o ano de 1979 e chegou a conclusão que a terapia de megavitaminas era ineficaz e poderia ser prejudicial. Após o Subcomitê de Defesa dos EUA examinar esta terapia, ela deixou de ser um tratamento coberto pelo CHAMPUS, o programa de seguro-saúde dos dependentes de militares. 

Várias alegações que megavitaminas e megaminerais são eficazes contra psicoses, desordens de aprendizado e retardo mental em crianças foram desmascaradas em relatórios do comitê de nutrição da American Academy of Pediatrics em 1976 e 1981 e pela Canadian Academy of Pediatrics em 1990 [3]. Os dois grupos advertiram que não existe nenhuma prova de benefício em qualquer um destes problemas e que megadoses podem ter efeitos tóxicos graves. O relatório de 1976 concluiu que um "culto" tem se desenvolvido entre os seguidores da terapia de megavitaminas [4].

Em 1991, pesquisadores holandeses publicaram sua avaliação de 53 ensaios controlados dos efeitos da niacina, vitamina B6 e multivitaminas sobre as funções mentais. Eles concluíram:

Virtualmente todos os ensaios mostraram deficiências graves: no número de participantes, na apresentação das características de linha de base e dos resultados, e na descrição das mudanças em tratamentos concomitantes. Somente em crianças autistas alguns resultados positivos foram encontrados com doses muito altas de vitamina B6 combinadas com magnésio, mas são necessárias evidências adicionais antes que se possa chegar à conclusões mais definitivas. Para as muitas outras indicações (crianças hiperativas, crianças com síndrome de Down, mudanças do QI em crianças saudáveis em idade escolar, esquizofrenia, funções psicológicas em adultos saudáveis e pacientes geriátricos) não existe nenhum suporte adequado a partir de ensaios controlados a favor da suplementação com vitaminas [5].

Subseqüentemente, uma equipe norte-americana usando uma ampla pesquisa pelo computador conseguiu localizar 12 estudos com a vitamina B6 e o magnésio para o autismo. Sua análise, publicada em 1995, concluiu:

A maioria dos estudos relatou uma resposta favorável ao tratamento com vitamina. Entretanto, a interpretação destes achados positivos precisa ser moderado devido às deficiências metodológicas inerentes em muitos dos estudos. Por exemplo, uma série de estudos empregou medidas imprecisas dos resultados, foram baseados em amostras pequenas e um possível uso repetido dos mesmos indivíduos em mais de um estudo, não ajustaram os efeitos de regressão na melhoria das medidas e omitiram coletar dados de acompanhamento por longo período de tempo [6].

Todos os 12 estudos parecem ter sido escritos por pesquisadores que são amigos íntimos. (Uma pessoa, por exemplo, é co-autora de onze dos trabalhos). Cada um dos estudos usou pelo menos 600 mg por dia de vitamina B6, o que está bem acima da quantidade mínima descrita como causadora de lesão em nervos. Então mesmo se estas doses de B6 fossem eficazes, seu uso provavelmente não seria seguro.

Um recente estudo duplo-cego randomizado não encontrou nenhuma evidência que regulando os níveis de vitaminas de adultos com esquizofrenia influenciasse o estado clínico de 19 pacientes adultos com esquizofrenia. O grupo experimental recebeu quantidades de megavitaminas baseadas em seu nível de vitaminas no soro mais restrição dietética baseada em testes de Radioallergosorbent (RAST). O grupo controle recebeu 25 mg de vitamina C e foram prescritas substâncias consideradas alergênicas pelo teste RAST. Após cinco meses, houve diferenças marcantes nos níveis de vitaminas no soro mas nenhuma diferença consistente nos sintomas ou no comportamento entre os grupos [7].

A Linha Final

O corpo humano tem uma capacidade limitada para utilizar vitaminas em suas atividades metabólicas. Quando as vitaminas são consumidas além das necessidades fisiológicas do corpo, elas agem como drogas ao invés de vitaminas. Existem algumas situações nas quais altas doses de vitaminas são reconhecidamente benéficas, mas ainda assim elas devem ser usadas com cautela devido ao potencial de toxicidade. Por exemplo, doses altas de niacina podem ser muito úteis como parte de um programa abrangente, supervisionado por um médico, para controlar níveis anormais de colesterol no sangue. Entretanto, os profissionais da "ortomolecular" vão muito além disso por prescreverem grandes quantidades de suplementos para todos ou para a maioria dos pacientes que consultam com eles. Esta abordagem pode resultar em um grande dano aos pacientes psiquiátricos quando usada no lugar de medicamentos eficazes. 

Referências

  1. Princeton Brain Bio Center. Brochure, distributed to patients. Skillman, N.J., 1983, The Center.
  2. Lipton M and others. Task Force Report on Megavitamin and Orthomolecular Therapy in Psychiatry. Washington D.C., 1973, American Psychiatric Association.
  3. Nutrition Committee, Canadian Paediatric Society. Megavitamin and megamineral therapy in childhood, Canadian Medical Association Journal 143:1009­1013, 1990.
  4. Committee on Nutrition, American Academy of Pediatrics. Megavitamin therapy for childhood psychoses and learning disabilities. Pediatrics 58:910­912, 1976.
  5. Kleijnen J, Knipschild P. Niacin and vitamin B6 in mental functioning: a review of controlled trials in humans. Biological Psychiatry 29:931-941, 1991
  6. Pfeiffer SI and others. Efficacy of vitamin B6 and magnesium in the treatment of autism: A methodology review and summary of outcomes. Journal of Autism and Developmental Disorders 25:481-493, 1995.
  7. Vaughan K, McConaghy M. Megavitamin and dietary treatment in schizophrenia: A randomised, controlled trial. Australia New Zealand Journal of Psychiatry 33:84-88, 1999.

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Este artigo foi revisto em 9 de dezembro de 2000.

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