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Falsos Princípios do Para-Herbalismo

Varro E. Tyler, Ph.D.

O verdadeiro herbalismo submete-se ao exame científico, relatos honestos dos resultados e o uso seguro de ervas eficazes por profissionais informados e o público. Também inclui a produção e comercialização ética de produtos de ervas. O verdadeiro herbalismo, que honra o maravilhoso mundo das plantas, realmente existe como parte da ciência da farmacognosia. Entretanto, há um lado negro do herbalismo que eu chamo de para-herbalismo.

O herbalismo e o para-herbalismo podem ser comparados ao Dr. Jekyll e seu ego perverso, Mr. Hyde. Como com estes personagens famosos da ficção, o perigo está sempre presente tal que a parte boa (herbalismo) será destruída pela parte ruim (para-herbalismo). O que seria trágico porque o herbalismo pode desempenhar um papel útil na arena da assistência à saúde. 

O  para-herbalismo é caracterizado no mínimo por dez princípios falsos. Ainda que nem todo para-herbanário siga todos eles, faz o suficiente para concluir que todos são características desta área. 

Princípio n°1: Uma conspiração do establisment médico desencoraja o uso das ervas.

Uma declaração vigorosa deste princípio é a afirmação de Heinerman de que, "Uma grande parte desta desconfiança em relação as ervas e aos métodos naturais de cura é devido ao preconceito implacável e oposição caluniosa posta por grande parte da comunidade médica regular. Muito freqüentemente eles se unem nesta conspiração nociva com a indústria farmacêutica." Outros tem sugerido que os herbanários (e outros "pioneiros" da indústria dos alimentos-saudáveis) são automaticamente rotulados como curandeiros e charlatões pela "combinação do AMA-FDA." [American Medical Association, Food and Drug Administration]

Jamais encontrei um médico que soubesse o bastante sobre ervas criar uma voz de oposição. Médicos que levam em consideração os remédios de ervas em geral são raros. Nada é ensinado aos médicos a respeito deste assunto na faculdade. Se ficam curiosos e compram um livro popular sobre o assunto, ler que raízes de iúca são "moídas e fervidas para fazer um chá para tratar diabetes" pode inspirá-los a colocar o volume no mesmo patamar de livros devotados à superstição e bruxaria. Podem até mesmo jogar fora o livro, porém não parariam de usar insulina, a qual eles sabem que é uma droga eficaz. 

Médicos mais curiosos podem até mesmo investigar as credenciais daqueles cujos livros sobre remédios de ervas são mais amplamente distribuídos. Se fizerem isto, podem descobrir que Sybil Leek é descrito no Quem é Quem da América como astrólogo e escritor de diversos livros sobre bruxaria, incluindo o Diary of a Witch. Podem também descobrir que Richard Passwater obteve o seu "Ph.D." de uma escola por correspondência não credenciada que não foi autorizada a conceder títulos acadêmicos. É pouco provável que tais credenciais inspirem médicos treinados cientificamente a confiarem nos defensores para-herbários. 

Na indústria farmacêutica, prevalece outra atitude. Aqui é reconhecido que as plantas tem rendido drogas eficazes como o ópio, digital, ergotina e beladona. Mas há um potencial de lucro insuficiente para estimular mais pesquisas com novas drogas de plantas. Com o custo para desenvolver uma nova substância química e colocá-la no mercado farmacêutico atualmente superando os 100 milhões de dólares, os fabricantes focalizam sua atenção em produtos onde a proteção por patentes pode ser conseguida ao invés de remédios de plantas amplamente utilizados que provavelmente não podem se tornar drogas patenteáveis. Novamente, não há nenhuma conspiração mas simplesmente uma falta de lucro esperado.

Princípio n°2: As ervas não podem prejudicar, somente curar. 

É um dogma antigo -- repetido nos herbários modernos -- que as drogas de origem vegetal são automaticamente boas, porém aquelas derivadas de minerais ou do petróleo são necessariamente ruins. William Smith, por exemplo, declara em Wonders in Weeds que: "Pode ser enfatizado no mais alto grau que os medicamentos de ervas são 'medicamentos seguros,' uma alegação que não pode ser aplicada aos remédios ortodoxos."

Esta tese nega o fato de que alguns constituintes das plantas estão entre as mais tóxicas substâncias conhecidas. Alcalóides intensamente tóxicos, variando no alfabeto de aconitina a zigadenina, são abundantes. Outros constituintes, como os peptídeos amatoxinas presentes em certos fungos, podem também matar. Mesmo assim, os consumidores provavelmente tem uma chance menor de sofrerem envenenamento agudo por estricnina ao ingerirem caroços de noz vômica comparado com as exposições à toxinas mais brandas e menos óbvias através do uso repetido de certos  remédios como sassafrás ou confrei. E certos ésteres de diterpina são co-carcinogênos (promotores de tumor).

Princípio n°3: Ervas completas são mais eficazes que seus constituintes ativos isolados. 

Muitos para-herbanários modernos afirmam que as plantas não são apenas a maneira mais segura de administra remédios, mas também a mais eficaz. Eles alegam que além de seus princípios ativos, as plantas podem conter outras substâncias que intensificam sua ação terapêutica por algum tipo de processo sinérgico. 

Talvez o defensor mais persistente desta doutrina seja Andrew T. Weil, M.D., que argumenta, "No caso de drogas de plantas, as formas completas, sendo misturas complexas e deste modo impuras, tendem a ser mais seguras que seus derivados puros, livres de diluentes e disponíveis em formas altamente refinadas." Weil também argumenta que quanto menor a concentração de um constituinte ativo presente no tecido da planta mais segura para o uso será a droga proporcionada por esta planta. Finalmente, ele sustenta que os vários constituintes ativos em uma planta operam de maneira sinérgica para produzir um efeito total maior que a mera soma das atividades dos componentes individuais. 

As duas primeiras observações de Weil podem ser descartadas simplesmente salientando que a dosagem, a qual governa a segurança e a eficácia de uma droga, é muito mais facilmente controlada com constituintes purificados. O sinergismo ocasionalmente ocorre, mas para cada caso onde uma ação desejável é alcançada, existem diversos outros onde ações indesejáveis são produzidas. Por exemplo, a cinchona contêm cerca de 25 alcalóides bastante relacionados quimicamente, mas o único reconhecidamente útil no tratamento da malária é a quinina. Uma pessoa que tomasse pó da casca de cinchona estaria também ingerido o alcalóide da quinidina, um depressor cardíaco, e o ácido cinchotânico, que induziria constipação. 

Um exemplo ainda mais significativo é o confrei, cujas folhas e partes subterrâneas são amplamente recomendados por herbanários modernos como cicatrizantes. Qualquer que seja a atividade deste tipo que a planta possui é devido ao seu conteúdo de alantoína, um agente que aparentemente promove a proliferação celular. Entretanto, o confrei também contêm alcalóides carcinogênicos pirrolizidinas, incluindo equimidina e sinfitina. A alantoína purificada, livre do acompanhamento dos carcinógenos, obviamente seria mais segura para o uso. 

Princípio n°4: Ervas "naturais" e "orgânicas" são superiores às droga sintéticas. 

Os para-herbanários alegam que os produtos feitos através de processos metabólicos de plantas ou animais possuem uma superioridade inata em relação aos produtos idênticos sintetizados em uma laboratório químico. A falsidade desta alegação foi demonstrada no distante ano de 1828 quando o químico alemão Friedrich Wohler sintetizou uréia a partir de materiais inorgânicos. A uréia sintética de Wohler era idêntica em todos os aspectos com a uréia biossintetizada e excretada pelos animais ou biossintetizada e acumulada por muitas espécies de fungos superiores. Deste modo, declarações como, "A indústria farmacêutica precisa parar de perder tempo com substâncias sintéticas perigosas e se voltar, mais uma vez, para as substâncias mais naturais que Deus colocou sobre esta terra para nossa saúde e benefício," são derivadas de crenças sem fundamentos ao invés de metodologia científica.

O termo "orgânico" é usado para descrever plantas que crescem sem pesticidas ou fertilizantes sintéticos. Acredita-se que os materiais produzidos de tais plantas sejam de algum modo superiores àqueles produzidos pela agricultura convencional. Esta crença é baseada em uma completa incompreensão da nutrição e fisiologia das plantas. As plantas necessitam nutrientes inorgânicos como nitrogênio, fósforo e potássio para o crescimento normal. Elas obtêm estes elementos do solo e não têm nenhum mecanismo para distinguir sua fonte original. Se quantidades adequadas estão presentes, as plantas crescem normalmente. Do contrário, isto não ocorre. 

Já com os pesticidas a questão é ligeiramente diferente. Os limites de segurança apropriada foram estabelecidos, e alguns pesticidas foram banidos. É possível que as plantas cresçam sem o uso de pesticidas, mas o rendimento por hectare é muito menor. Então ou se confia nos fazendeiros científicos e nos processos reguladores ou se paga consideravelmente mais pelos alimentos. 

Princípio n°5: A "Doutrina das Assinaturas" é significativa.

Os três afrodisíacos mais populares vendidos no oriente devem suas alegadas propriedades à pretensa Doutrina das Assinaturas -- a antiga crença de que o formato e a aparência de uma fonte de droga determinam suas virtudes terapêuticas. Deste modo, chifres de rinoceronte, chifres de veado e raiz de ginseng com sua semelhança fálica (ou no caso do ginseng bifurcado com radículas anexadas, semelhante ao corpo humano completo com falo) são altamente estimados como agentes de virilidade. Nas farmácias chinesas, os chifres são tipicamente expostos em caixas aveludadas em vitrines de vidros e vendidos por preços comparáveis às pérolas de alto padrão. 

Jamais foi comprovado que chifres de veados e de rinocerontes contenham qualquer constituinte que estimule a libido ou cure a impotência. Qualquer atividade deveria ser atribuída ao efeito placebo. O ginseng contêm saponinas triterpenoides, as quais foram atribuídas várias atividades fisiológicas. Entretanto, nenhuma evidência substancial, de que o ginseng intensifique a experiência sexual ou a potência, foi publicada na literatura científica. 

A Doutrina das Assinaturas não é exclusiva ao oriente. Gerard relatou em 1597 que o suco de eufrásia* aplicado aos olhos, "liberta os olhos da escuridão e obscuridade e clareia a visão." Variações deste conselho são pontualmente repetidas pela maioria dos para-herbanários dos dias de hoje. 

Na verdade, não é conhecido nenhum constituinte da eufrásia que seja benéfico contra qualquer doença ocular. Os herbanários medievais presumiam que era eficaz porque a corola branca para azulada de sua flor que traz uma mancha amarela brilhante, torna a flor semelhante a um olho com sua pupila. Acreditar que esta estrutura torna a planta eficaz contra doenças oculares faz tanto sentido quanto acreditar que as nozes são boas para doenças mentais porque sua parte comestível lembram o cérebro ou que as hepáticas são boas para icterícia porque suas folhas lembram o formato do fígado.

Princípio n°6: Reduzir a dose de um remédio aumenta sua potência terapêutica. 

Este, como a Doutrina das Assinaturas, é um princípio exposto pelos homeopatas. Fundada por volta do final do século XVIII por Samuel Hahnemann, um médico alemão, a homeopatia originalmente tinha três princípios básicos: 1) as doenças são curadas por pequenas doses de drogas as quais, quando administradas em grandes doses em pessoas saudáveis, produzem efeitos similares aos sintomas das doenças; 2) a potência de uma droga é inversamente proporcional a sua concentração; e 3) doenças crônicas são simplesmente manifestações de um desejo ou psora suprimido, uma espécie de espírito maligno.  Esta última noção mostrou-se tão constrangedora, que mesmo os praticantes homeopatas mais fervorosos, logo a abandonaram. 

A oitava edição (1980) da Homeopathic Pharmacopoeia contêm cerca de 600 páginas de monografias, a maioria delas sobre drogas originadas de plantas. Os remédios homeopáticos contidos neste livro são reconhecidos como drogas perante as leis federais dos EUA, um fato apreciado pelos para-herbanários. Algumas das substâncias listadas, como a cinchona, os digitais e o ópio, são eficazes na dosagem apropriada. Mas a homeopatia advoga a alta diluição para o efeito máximo. Muitos remédios homeopáticos são tão diluídos que é estatisticamente improvável que contenham uma única molécula da substância original. 

Ainda assim, houve um ressurgimento do interesse pela homeopatia nos Estados Unidos nos últimos anos. Sua suposta segurança e orientação "holística," combinada com sua vasta matéria médica [do latim, farmacopéia] de drogas vegetais, são um forte apelo para muitos para-herbanários. 

Princípio n°7: Influências astrológicas são significativas. 

Em seu livro recente, Herbs, Health and Astrology, Leon Petulengro comenta, "Sabendo que como  nós, os planetas e as estrelas emitem seus próprios sinais ou vibrações individuais, como podemos descrer que o conhecimento antigo estava certo e que as ervas e as plantas, e na verdade os humanos, são regidos por estas variadas vibrações ou campos de força?"

Como, na verdade? Apenas compare as drogas com efeitos fisiológicos similares e os planetas diferentes aos quais elas são referidas. Por exemplo, giesta, digitais, lírio-do-vale e heléboro negro todas produzem drogas que podem diminuir o batimento cardíaco, torná-lo mais regular ou sob outros aspectos fortalecê-lo. Mas são completamente diferentes umas das outras na aparência e pertencem à famílias vegetais diferentes. Provavelmente por esta razão, Culpeper referiu cada uma a um planeta "governante" diferente -- uma classificação repetida por Sybil Leek.

Culpeper presumia que as doenças causadas por um certo planeta eram curadas pelas ervas do mesmo planeta ou do planeta "oposto." Por exemplo, uma vez que as doenças cardíacas e dos vasos sangüíneos são causadas pelo sol, elas deveriam ser curadas pelas ervas dominadas pelo sol ou governadas por Saturno. Se isto fosse verdade, o heléboro negro seria a única erva presente em uma das categorias acima que é eficaz contra doenças cardíacas. Na verdade, é provavelmente a droga cardiotônica menos eficaz considerada por Culpeper e foi retirada da United States Pharmacopoeia em 1882. A giesta foi oficialmente listada até 1936 (e seu princípio ativo até 1950) e a raiz do lírio-do-campo apareceu até 1950. O digital ainda está listado junto com seus glicosídeos constituintes, que são extensivamente utilizados. Deste modo, o pensamento astrológico classificou corretamente somente uma de quatro e selecionou o pior exemplo. 

Olhando pelo outro lado, vamos assumir, como Culpeper nos teria feito acreditar, que as ervas "dominadas" pelo sol realmente fortaleçam o coração por afinidade. O açafrão, ele disse, "é uma erva do sol, e sob o domínio de leão, e portanto você não precisa ter uma razão, porque ele  fortalece o coração excessivamente." O zimbro, ele escreveu, "é um arbusto solar admirável." A ligústica, ele continuou, "é uma erva do sol." Do alecrim, ele apontou, "O sol reivindica privilégios sobre ele." Nenhum destas plantas tem qualquer efeito cardíaco significativo. Na verdade, das mais de trinta plantas descritas por Culpeper e Leek como ervas do sol, somente o visgo -- que é completamente tóxico -- tem algum efeito considerável sobre o sistema cardiovascular. 

Princípio n°8: Testes fisiológicos em animais não são aplicáveis aos seres humanos. 

Quando convêm aos seus propósitos, os para-herbanários tipicamente reclamam que os resultados das experiências com animais não deveriam ser aplicados às ervas. Heinerman disse, por exemplo, que o sassafrás foi removido do mercado "apenas porque aconteceu de um punhado de 'ratos fracos, doentes, envoltos em sujeira' pegarem câncer quando esta planta foi injetada neles por seus parentes maiores, menos inteligentes."

É verdade que existem grandes diferenças entre as várias espécies animais e entre os animais e os humanos. Entretanto, há uma grande probabilidade de ser algo significativo quando espécies diferentes mostram efeitos similares. Por esta razão, as drogas novas deveriam ser avaliadas em várias espécies animais, preferencialmente de ordens diferentes. As ervas precisam realmente ser testadas para avaliar sua segurança e eficácia. Se o teste com animais não é aceitável aos para-herbanários, a única alternativa a isto -- fazer a triagem inicial de drogas em humanos -- é ainda menos aceitável para o público.

Princípio n°9: Evidência anedótica é altamente significativa. 

Há uma século atrás, testemunhos calorosos eram amplamente utilizados para vender remédios patenteados. Hoje, testemunhos similares são usados com remédios de ervas. Por exemplo, Herbal Success Stories, publicado em 1980, reconta "histórias de casos reais" daqueles que "ou tinham o problema e se curaram ou ajudaram um membro da família ou um amigo com a doença  ou cura." De acordo com o autor, os leitores podem "usar este livro com a certeza que os sucessos narrados lá são verdadeiros."

Infelizmente, em casos individuais, é difícil ou impossível dizer se uma cura relatada resultou do tratamento, de um efeito placebo ou da capacidade do corpo em se curar. Também pode ser difícil dizer se uma anedota foi relatada com precisão ou se até mesmo foi inventada. A evidência anedótica pode proporcionar um pontapé inicial para as pesquisas, mas não é confiável para estabelecer a utilidade terapêutica de uma erva. O que exige investigações preliminares em animais de laboratório seguida por ensaios clínicos duplo-cego, randomizados em humanos.

Princípio n°10: As ervas foram criadas por Deus especificamente para curar doenças. 

Muitos para-herbanários alegam que Deus proporcionou um remédio para cada doença que pode nos afligir. Esta alegação pode atrair pessoas profundamente religiosas, mas não é testável e não é um substituto legítimo para a evidência científica. 

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Dr. Tyler, que recentemente se aposentou, foi professor com louvores de farmacognosia (ciência que estuda os medicamentos extraídos de fontes naturais) na Purdue University. Uma autoridade mundialmente reconhecida, escreveu The Honest Herbal, uma avaliação das ervas populares, e foi autor sênior do livro-texto Pharmacognosy. Este artigo foi  adaptado da edição de novembro/dezembro de 1989 do Nutrition Forum Newsletter.

 

O Campo Minado das Ervas ||| Quackwatch em português

Este artigo foi publicado no site original em 31 de agosto de 1999.

 

 

 

 

 

 

 


 

N.T.: no original "eyebright", planta do gênero Euphrasia. [voltar para o texto]

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