Quackwatch em português     

Por que o Charlatanismo Persiste

James Harvey Young, Ph.D.

Tradutor: Francisco S. Wechsler, Ph.D.

Os estadunidenses, sendo geralmente um povo otimista, acreditam que problemas existem para ser resolvidos. No começo do século XX, quando o charlatanismo passou a ser reconhecido como um problema importante na área de saúde, muitos observadores vaticinaram sua morte como certa. Bom-senso, melhor educação, verdades científicas e leis que visassem garantir uma nomenclatura honesta expulsariam o charlatanismo do mercado. Tendo em vista, principalmente, que a medicina moderna se desenvolvia e derrotava uma doença após outra, algo tão ultrapassado e desnecessário como o charlatanismo pereceria em breve.

Mas tal não aconteceu. Muito pelo contrário! O charlatanismo médico é hoje um negócio de muitos bilhões de dólares, e sua perspectiva futura parece mais brilhante ainda. Por que o charlatanismo persiste em nossa moderna era científica? Buscaremos uma explicação para este fato perturbador, examinando os papéis das quatro partes envolvidas: o paciente, o profissional científico, o charlatão e o órgão fiscalizador, que faz cumprir as leis contra o charlatanismo.

O Paciente

A área da saúde é extremamente complicada. O homem comum - a quem chamaremos de José da Silva - absorve um grande volume de informação sobre o assunto. O que ele sabe, todavia, é provavelmente um amontoado de fatos ao acaso, aprendidos numa quantidade de fontes, idôneas e inidôneas, que incluem o folclore familiar e o palavrório do anúncio em voga. Estatisticamente, talvez a maioria das pessoas estejam mais certas que erradas, mas poucas escapam dos pontos obscuros e armadilhas, que as tornam vulneráveis ao embuste, nas circunstâncias adequadas. Isto se aplica até a alguns Josés da Silva de grande intelecto, com vários títulos após o nome.

Ao vislumbrar um episódio de doença, José da Silva enfrenta-o por conta própria, ou busca auxílio de uma autoridade médica, ou faz ambas as coisas. Se optar pela automedicação, tentará algum remédio vindo da tradição popular, de leitura recente ou da televisão. Talvez tente o alho da horta, uma dose gigante de vitamina C, ou um tônico de marca. Ele tende a julgar os resultados com a mesma regra prática usada para julgar as relações de causa e efeito no dia-a-dia: O machado cortou? O terno serviu? O motor funcionou? Ele se pergunta: Os sintomas sumiram? Minha digestão melhorou? Meus nervos se acalmaram? Meu resfriado parou?

José da Silva geralmente não percebe que a maioria das doenças são auto-limitantes e melhoram com o tempo, tratadas ou não. Quando o sintoma desaparece ao tomar um remédio, José tenderá a atribuir a cura ao remédio. Não vê que melhoraria do mesmo jeito, se nada fizesse! Talvez tampouco distinga entre cura e alívio temporário dum sintoma. Milhares de Josés e Marias da Silva bem-intencionados aumentam a fama de mezinhas e assinam depoimentos sinceros em prol de poções, atribuindo a elas, e não aos poderes de recuperação do corpo, seu retorno ao bem-estar.

José da Silva tampouco leva em conta o efeito "placebo" ao avaliar remédios. A preocupação tem grande efeito em como nos sentimos quando doentes. Quanto mais apreensivos estivermos com a doença, tanto mais incômodos nos parecerão os sintomas. Inversamente, quanto menos apreensivos, talvez melhor nos sintamos. Quando José da Silva toma um remédio que acha útil, freqüentemente sentirá menos dor ou desconforto. Sentir-se melhor quando o médico entra no quarto é outro exemplo deste mecanismo. O efeito placebo pode funcionar de outro modo. Algumas moléstias causadas por reações orgânicas à tensão melhoram, quando a percepção de estar recebendo tratamento eficaz alivia a tensão.

Boa parte do sucesso de remédios de marca legais, comprados em farmácia, reside, sem dúvida, no efeito placebo. Porta-vozes da indústria farmacêutica  admitem, às vezes, este fato. Alegações exageradas de anúncios podem aumentar ainda mais a expectativa do consumidor, intensificando o efeito placebo. Porém, este pequeno benefício não justifica o exagero. O uso excessivo de drogas eventualmente úteis apresenta riscos à saúde. A disposição dos jovens em experimentar drogas perigosas talvez tenha algo que ver com a atitude, moldada pela propaganda constante, de que uma droga existe para afugentar quase todos os problemas. Uma grande parcela da propaganda sugere que remédios comuns podem, de algum modo, fazer mais que aliviar meros sintomas; também conseguem tornar uma pessoa socialmente desejável ou extinguir comportamentos indesejáveis, como "gritar com a esposa". Além disso, confiar demais na automedicação, ou usá-la por tempo excessivo, violando as advertências da bula, faz com que se adie o tratamento mais adequado para uma doença grave, até que seja tarde demais. O charlatanismo descarado, é claro, trabalha sem nenhuma das restrições respeitadas pela indústria farmacêutica, e representa, portanto, perigo muito maior.

O José da Silva que venho descrevendo recorre, vez por outra, à automedicação, quando sua vida, normalmente saudável, é perturbada. Alguns de seus infelizes primos, contudo, vivem em pavor constante duma iminente catástrofe. Parecem  ser governados por uma ansiedade devoradora, que os leva à automedicação contínua, amiúde com programas "preventivos" bizarros. Um exemplo seria tomar vinte e cinco pílulas de suplementos por dia. Alguns pacientes aflitos chegam a seguir sistemas inclusivos, que misturam práticas dietéticas, exercícios,  acessórios e filosofias místicas. Tais perspectivas combinadas de estilo de vida, representam, de fato, um segmento em expansão da terapia anticientífica. Essas pessoas perturbadas constituem um alvo importante para a exploração  charlatanesca.

Com freqüência, é claro, esses sofredores abandonam a automedicação e ingressam num grupo guiado por algum guru - exatamente como os Josés e Marias da Silva menos radicais desistiriam da auto-suficiência e buscariam auxílio de alguém aclamado como "especialista" pelos meios de comunicação. Existe muita confusão no público quanto a quem seja uma autoridade médica competente.

Alguns pacientes têm problemas com autoridade e tendem a rejeitar a ortodoxia, meramente porque é ortodoxa. Outros recorrem a profissionais anticientíficos, numa filosofia de "apostar em tudo". Estes acreditam em médicos de família  para tratar de moléstias físicas e receitar drogas; contudo, também acreditam  em quiropraxistas para manipular ossos e talvez operar máquinas que "curam". Também seguem o evangelho dos modismos alimentares. E não vêem nada de errado em usar, ao mesmo tempo, várias destas formas de tratamento, tendo a ciência e a pseudociência igual validez em suas mentes.

Uma última observação sobre o paciente. Quando sua saúde se vê gravemente ameaçada, ele espera, é óbvio, que algo possa ser feito para curá-lo. Seus  desejos, todavia, talvez ultrapassem o que a ortodoxia responsável é capaz  de conseguir. Defrontados com a possibilidade de sofrimento crônico ou morte,  muitos que nunca se desviaram do tratamento ortodoxo não conseguem aceitar  o duro veredito da ortodoxia e buscam outro caminho. Tal despero tem enriquecido o charlatanismo ligado ao câncer e à SIDA.

O Profissional Científico

A classe médica sempre considerou o conhecimento corrente como válido e tem, por vezes, mostrado tendência à presunção. Vez por outra - embora de raro em anos recentes - genuínos avanços científicos foram vistos como charlatanismo. Por outro lado, muitos tratamentos, tidos outrora em alto conceito, foram abandonados, por se mostrar inúteis. Conforme progride a ciência médica, torna-se, é claro, mais fácil traçar a linha divisória entre ortodoxia e charlatanismo. Desprezando este fato, os charlatães alardeiam os equívocos passados da medicina e descrevem-se como cientistas à frente de seu tempo, reprimidos pelo ganancioso sistema dominante.

Muitos sofrem efeitos colaterais das modernas drogas "milagrosas". Esta circunstância, aliada à prescrição excessiva de antibióticos, calmantes e estimulantes, ajuda a fomentar o estereótipo de que o País está "drogado", dando assim um empurrão promocional aos clínicos "naturais". No começo do  século dezenove, os charlatães apelidavam os médicos de açougueiros; hoje, chamam-nos de envenenadores.

Médicos científicos, ademais, enfrentam problemas com seu poder e sua  posição social. Muitos leigos sentem-se pouco à vontade na presença dum especialista. O paciente sente-se aflito, por estar doente e apreensivo. Vendo o médico atarefado e sob pressão, o paciente poderá sentir-se um intruso. Talvez os médicos sejam rudes, não tenham paciência de escutar, ou omitam explanações; seus prognósticos talvez sejam desencorajadores, e sua terapia, longa e desagradável. Cobram polpudos honorários, ganham mais dinheiro, e vivem melhor que o paciente, quiçá causando irritação e inveja. Alguns pacientes simplesmente fogem, por puro medo, de médicos respeitáveis, cuja amabilidade fica aquém da que charlatães são capazes de fornecer. Até pacientes que têm seus médicos em alta conta podem ter baixo conceito dos médicos como grupo. O aspecto de poder da medicina oficial aliena a muitos. A medicina organizada, segundo acham, trabalha mais para seu próprio interesse econômico e político que para o bem comum. Tal imagem na mente do povo ajuda e incita o charlatanismo. De fato, através da história, qualquer crítica do poder ou ciência da medicina ortodoxa tem sido agarrada, amplificada e trombeteada aos quatro ventos pelos charlatães.

O Charlatão

O profissional anticientífico não precisa obedecer às restrições da medicina respeitável. Onde a verdadeira ciência médica é complexa, o charlatão pode supersimplificar. Todas as doenças são "desequilíbrios", e qualquer coisa que o charlatão faça recupera o "equilíbrio". Onde as moléstias são autolimitantes, o charlatão faz da natureza seu aliado secreto, atribuindo a seu tônico o poder de cura da tuberculose, quando foi a natureza que reduziu a secreção nasal do paciente. Onde o placebo talvez atue, o charlatão receita-o habilmente. Poderá ser um remédio para artrite tão antigo como uma pulseira de cobre, ou tão moderno como "poeira lunar".

O charlatão dá mais atenção ao paciente que à doença, buscando convencê-lo de que o tratamento é necessário. Uma dose de medo pode ser um persuasor eficaz. Ralph Lee Smith, em seu livro At Your Own Risk   ("Por Sua Conta e Risco"), conta como se infiltrou numa escola dirigida por um quiropraxista do Texas, que visava ensinar a outros quiropraxistas como aumentar seus rendimentos. "Se o paciente tiver uma dor no ombro esquerdo," dizia o professor, os alunos devem perguntar: "A dor já começou no ombro direito?" [A chamada " Doença do Já".]

Acompanham o medo a ternura e autoconfiança. A maioria dos chalatães exibem uma soberba "postura médica". Já que não conseguem uma cura real, no caso de doença importante, especializam-se em promessas, simpatia, consideração, preocupação e consolo. O paciente responde a tal atenção. Isto ajuda a explicar um dos estranhos paradoxos relativos ao charlatanismo - o fracasso raramente diminui a lealdade do paciente. Quando os órgãos fiscalizadores tentam processar charlatães, têm dificuldade em conseguir pacientes lesados para depor em juízo. Em parte, isto provém da aversão em mostrar-se ao público como incauto; mas, com freqüência, esta relutância em depor funda-se na incapacidade de perceber o logro. Muitos charlatães são tão aptos em transmitir sinceridade, que suas explicações parecem plausíveis ao extremo. Mesmo pacientes à beira da morte acreditam na pessoa "bondosa", que lhes diz que aquele remédio especial poderia ter funcionado, se o tratamento houvesse começado só um pouquinho mais cedo.

Algumas afirmações minhas sugerem que os médicos poderiam melhorar seu trato com pacientes. Outros aspectos de vulnerabilidade são tão inerentes à natureza humana, que nunca se poderá eliminá-los. Embora os médicos tentem ajudar seus pacientes se puderem, algumas vezes são forçados a confessar que não podem. Os charlatães não precisam fazer tal confissão, pois a honestidade não faz parte de seu código de ética. Isto lhes dá uma grande vantagem ao competir com médicos por pacientes do tipo que descrevi. Pois os charlatães podem prometer qualquer coisa - moldando seus apelos conforme qualquer susceptibilidade, vulnerabilidade e curiosidade que a natureza humana revele.

O Órgão Fiscalizador

Criou-se, no século XX, um emaranhado de leis destinadas a reprimir os charlatães. Os órgãos fiscalizadores que as aplicam têm conquistado vitórias significantes. A Comisão Federal de Comércio tem suprimido muita propaganda enganosa. A FDA (Agência de Alimentos e Drogas) e os Correios têm retirado muitas drogas fraudulentas do mercado e posto alguns charlatães na cadeia. A lei Kefauver-Harris de 1962 exige que novas drogas tenham eficácia e segurança comprovadas, antes de sua comercialização. Em virtude desta lei, muitos negócios morreram no berço ou foram logo extintos.

Mas a regulamentação não extinguiu o charlatanismo. Para agir contra um anúncio enganoso de tratamento, o órgão fiscalizador deve primeiro ficar sabendo de sua existência e a seguir determinar se uma ação coibitiva vale a pena. Algumas formas de charlatanismo escapam à detecção, e outras a processo, porque o orçamento dos órgãos é escasso para combater todas as atividades ilegais observadas. Assuntos de grande impacto público, além do charlatanismo, clamam por atenção. A fraudes que só ameaçam o bolso, mas não a saúde das vítimas, têm baixa prioridade na escala de fiscalização. Embora algumas campanhas charlatanescas sejam extintas rapidamente, outras podem redundar em longas batalhas judiciais, enquanto a propaganda prossegue.

Muitas vezes, o fiscalizador precisa contemporizar, deixando que um malfeitor escape de penas severas, pois um processo sobrecarregaria os recursos limitados da agência. Outras vezes, o órgão é forçado a conviver com a leniência dos tribunais. Embora um juiz comum possa, com razão, revoltar-se, quando uma vítima de charlatanismo é lesada gravemente, na maioria dos casos não há tal vítima à vista. É pouco provável que o vigarista que vende falsas "cintas de emagrecimento", por $9.95 cada, vá para a cadeia, mesmo que seu ganho chegue a milhões de dólares. Os tribunais parecem achar que, por pequenas quantias, deve-se deixar os tolos sofrer as conseqüências de sua tolice.

A tarefa dos fiscalizadores seria muito facilitada, se as vítimas de charlatanismo se unissem para ajudá-los. Mas ressalta a tendência oposta: muitas vítimas são logradas tão completamente, que se dedicam ao ativismo político contra a regulamentação. Nos anos 70, quando a FDA tentou coibir falsas alegações sobre vitaminas e doses perigosamente altas destas, uma coalizão de vendedores de vitaminas e clientes submetidos a lavagem cerebral persuadiu tanto o Congresso como os tribunais a limitar a jurisdição da FDA sobre esta  matéria (veja o Capítulo 28). Quando a FTC (Comissão Federal de Comércio) cogitou em proibir o uso das palavras "natural" e "orgânico," outra avalancha de protestos forçou a agência a desistir. A indústria de alimentos saudáveis continua em campanha feroz, para evitar que a FDA reforce a fiscalização de rótulos, visando refrear os embustes da indústria.

Nalguns casos, o fiscalizador tem sido rotulado como vilão com tanta habilidade pela propaganda dos charlatães, que a própria existência de regulamentação tem sido aproveitada para aumentar o apelo do charlatanismo. Eventos como a Guerra do Vietnã e Watergate criaram desilusão generalizada com o Governo. Inflação, preenchimento de formulários maçantes, e outras circunstâncias irritantes provocaram denúncias generalizadas de regulamentação excessiva. Os charlatães lucram com essa desconfiança. Ela os torna dignos de crédito, quando denunciam que os órgãos de saúde não se interessam pelo bem-estar do indivíduo, mas estão conspirando egoisticamente com a classe médica, a indústria farmacêutica ou a indústria de alimentos.

O sentimento antigovernamental ajudou, com certeza, os divulgadores da laetrila, um remédio contra o câncer, não comprovado e por fim desacreditado, a gerar o maior furor público da história de nosso País acerca dum remédio heterodoxo. Bradando "liberdade de escolha", os defensores deste falso remédio pressionaram vigorosamente os legislativos e tribunais estaduais a legalizar seu uso. Metade dos estados aprovaram leis que conferiam à laetrila situação especial, e um juiz federal autorizou sua importação por pacientes com câncer "terminal", uma decisão que durou doze anos, até que tribunais superiores a revertessem.

É mister um exame cuidadoso do lema "liberdade de escolha". Liberdade, uma das gloriosas palavras de nosso léxico, pode despertar simpatias poderosas. Mas a liberdade de escolha não pode funcionar no vazio; quanto mais fácil  for comercializar produtos de saúde não comprovados, tanto mais fácil será iludir pessoas a experimentá-los. O que os charlatães querem de fato é livrar-se da interferência governamental em sua propaganda. Leis que requerem prova  de eficácia antes da comercialização tornam muito fácil, na visão do vendedor suspeito, retirar seus produtos do mercado. A Federação Nacional de Saúde, uma aliança de propagandistas charlatães e seus seguidores, tem por anos tentado persuadir o Congresso a revogar a lei de 1962. A revogação da exigência de eficácia recolocaria nos ombros dos fiscalizadores o ônus de provar que todo produto inútil não tem valor - uma tarefa muito mais árdua que a exigida pela lei atual. A "liberdade" resultante beneficiaria os charlatães, cuja tramóia é refinada demais para que o cidadão comum a reconheça.

Há outro aspecto do tema "liberdade" por considerar. Vítimas desesperadas e suas famílias, tendo acabado de receber um diagnóstico de câncer ou SIDA, poderão ver-se acossadas por propagandistas ardorosos, para que tentem um  remédio não ortodoxo, sobre o qual se fazem promessas radiantes. Sob a dupla tensão do medo aliado à pressão de venda, muitos doentes não conseguem exercer liberdade de escolha sensata. Estes sofredores têm especial  carência da proteção de especialistas, que podem avaliar honestamente os remédios apregoados.

Frisa-se, em especial, que pacientes com doença "terminal" deveriam ter pronto acesso a remédios de charlatães. O argumento é atraente, mas capcioso. Dever-se-ia permitir que vigaristas "confortem" pacientes terminais, vendendo-lhes ações falsas - dizendo que ficarão ricos antes de morrer - com base na teoria de que, seja como for, não irão precisar do dinheiro? Além disso, mesmo que fosse possível demarcar o estado terminal - e geralmente não é - , não há como abrir a porta a um gruupo de pacientes, sem abri-la a outros. A Corte Suprema reconheceu este fato, ao decidir por unanimidade, em 1979, num caso relativo à laetrila, que não se deve abrir exceção à lei de eficácia de 1962, em prol dos chamados pacientes terminais de câncer. O Congresso, segundo o veredito, não tencionara proteger apenas os que sofriam de doenças curáveis.

"Liberdade de escolha", neste contexto, torna-se  um modo de manipular um símbolo respeitado, visando livrar o charlatão das amarras da lei. Precisamos de leis severas contra o charlatanismo, fiscalizadas por órgãos dedicados.

E Quanto ao Futuro?

Os esforços para educar contra os perigos do charlatanismo têm obtido algum sucesso. Mas o futuro do charlatanismo permanece luminoso, porque muitas pessoas têm atitudes que as tornam altamente vulneráveis. O medo de doenças perigosas ocupa alta prioridade na lista de apreensões de nossos cidadãos. Além disso, tornaram-se céticos quanto a instituições gigantescas, incluindo a ciência, e muitos desconfiam da razão como instrumento na busca da verdade. Qualquer que seja o mérito em suspeitar dos defeitos da razão, a reação tem ido amiúde ao extremo do flerte, quando não concubinato deliberado, com loucas variedades de insensatez. A aceitação da astrologia elevou-se, não apenas como passatempo, mas como "ciência" legítima, até em altas rodas. As editoras têm ganho milhões com ela. Nos anos 60, quase todo câmpus universitário oferecia um curso extracurricular sobre "leitura dos astros". O espiritualismo recuperou-se, com "igrejas espirituais" florescendo em quase todas as cidades. Cartas de tarô, quiromancia e numerologia prosperaram. Feitiçaria e cultos demoníacos ressurgiram. Brochuras sobre estes assuntos estavam entre os artigos mais vendidos nas livrarias universitárias. Muitos jovens voltaram as costas à civilização e seus dissabores, mostrando um novo primitivismo, algumas vezes recolhendo-se a comunidades remotas, outras simplesmente comprando alimentos "orgânicos" na loja de produtos de saúde mais próxima.

A década de 70 presenciou uma enorme expansão na busca autônoma por saúde. Embora salutar em muitos aspectos - se, por exemplo, exercício e dieta são guiados pela prudência - uma dedicação apaixonada à auto-ajuda pode desperdiçar  dinheiro e ser danosa à saúde, se guiada pelo conselheiro errado. No tocante  à alimentação, era - e ainda é - abundante a orientação errada, muita da qual se destina a vender livros ou artigos dietéticos especiais. Nos anos  80, a "comunicação espiritual" e a "Nova Era" tornaram-se termos do dia-a-dia, negócios dúbios de perda de peso expandiram-se, falsos "estimulantes de imunidade" e "auxílios ergogênicos" encontraram um mercado pronto, e a indústria de alimentos saudáveis continuou a explorar a apreensão do público com a "quimicização" de nossa sociedade. Nos anos 90, a divulgação de métodos "alternativos" atraiu um público ávido por opções e pelo controle de seu destino.

Pode-se ter, espero, forte simpatia por críticas contra as mazelas de nosso mundo. Mas aqueles que abraçam com fervor credos irracionais, que se atiram de cabeça em programas de auto-ajuda, fornecem um campo fértil para a atração a artigos anticientíficos de saúde. Pois, como já vimos, os charlatães são ágeis. Eles logo percebem as preocupações reais das pessoas e correm a explorá-las. Assim, pelas muitas razões de sempre, e por razões atuais também, é de esperar que o charlatanismo continue, se expanda e permaneça como um desafio aos tratamentos científicos.

Os charlatães nunca dormem. Mas a educação e fiscalização podem reduzir o dano que provocam, em recursos desperdiçados e sofrimento humano.

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O Dr. Young, professor aposentado de história da Universidade Emory, é historiador social, cujo principal interesse está no desenvolvimento da regulamentação de alimentos e drogas nos Estados Unidos. É membro do Conselho Consultivo Nacional de Alimentos e Drogas da FDA. Seus livros, The Toadstool Millionaires  ("As Poções Milionárias"), The Medical Messiahs ("Os Messias Médicos"), and American Health Quackery ("Charlatanismo Médico nos Estados Unidos"), investigam a história do charlatanismo nos Estados Unidos e os esforços para controlá-lo. Este artigo foi reproduzido de  The Health Robbers: A Close Look at Quackery in America ("Os Ladrões da Saúde: Um Exame Detalhado do Charlatanismo nos Estados Unidos", Prometheus Books, 1993).

Quackwatch em português

Este artigo foi publicado em 7 de dezembro de  2001.
Tradução completada em 30 de julho de 2002.

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