Quackwatch em português

Médium por um Dia:
Como Aprendi a Ler Cartas de Tarô, Leitura das Mãos,
Astrologia e Mediunidade em 24 horas

Michael Shermer

Na quarta-feira, 15 de janeiro 2003, gravei um programa de televisão com Bill Nye em Seattle, Washington, para uma nova série de ciência da PBS intitulada "Eye on Nye". Esta série é uma versão voltada aos adultos da série infantil de Bill que teve 100 episódios e um grande sucesso, "Bill Nye the Science Guy". Esse programa de 30 minutos foi sobre médiuns e conversas com mortos. Embora tenha analisado o processo e escrito bastante a respeito na Skeptic, Scientific American, How We Believe e na www.skeptic.com, tinha pouquíssima experiência real em fazer leituras mediúnicas. Bill e eu pensamos que seria um bom teste da eficácia da técnica e a receptividade das pessoas a ela ao ver como poderia me sair bem armado com apenas um pequeno conhecimento. Embora o dia da gravação fosse marcado com semanas de antecedência, não fiz absolutamente nada para me preparar até o dia anterior. Isso me deixou especialmente nervoso porque leituras mediúnicas são uma forma de encenação, e uma boa encenação precisa de talento e prática. E tornei as coisas ainda mais difíceis para mim ao convencer Bill e os produtores de que se íamos fazer isso deveríamos usar uma série de diferentes modalidades mediúnicas, incluindo cartas de Tarô, quiromancia, astrologia, e mediunidade psíquica, sob a teoria de que estes são todos "acessórios" usados para encenar um psicodrama chamado leitura fria (ler alguém "frio" sem qualquer conhecimento anterior). Estou mais convencido do que nunca de que trapacear (recebendo informação prévia sobre as pessoas) não é uma parte necessária de uma leitura de sucesso. 

Li cinco pessoas diferentes, todas mulheres que o pessoal da produção tinha selecionado e sobre as quais não me foi contado absolutamente nada exceto a data e hora de nascimento (para preparar um mapa astrológico). Não tive nenhum contato com qualquer uma das pessoas até sentaram-se em frente a mim para a gravação. Não houve nenhuma conversa entre nós até que as câmeras estivesse rodando. O cenário foi um estúdio de som na KCTS, a estação afiliada da PBS em Seattle. Uma vez que estúdios de som podem passam uma sensação um tanto fria, e porque o cenário para uma leitura mediúnica bem sucedida é vital para gerar receptividade nas pessoas, instruí a equipe de produção que colocassem duas poltronas confortáveis com uma pequena mesa no meio, com uma toalha rendada cobrindo a mesa e velas sobre e ao redor da mesa, tudo isso disposto sobre um lindo tapete persa. Luzes coloridas suaves e incensos proporcionaram um cenário "espiritual".

Os Fatos Parciais da Leitura Fria

Minha fonte primária para todas as leituras foi o perspicaz e enciclopédico livro de Ian Rowland, The Full Facts Book of Cold Reading (agora em sua 3ª edição disponível em www.ian-rowland.com). Há muito mais sobre o processo de leitura fria do que havia previamente compreendido antes de começar a ler este livro cuidadosamente com um olho na performance ao invés de apenas analisar. (É importante ter em mente que o que estou descrevendo é apenas um pequena amostra deste abrangente compêndio escrito por um profissional em leitura fria que é indiscutivelmente um dos melhores do mundo. Se você quiser tentar fazer leituras frias é essencial que leia o livro e não confie apenas em minha visão simplista dele.) Rowland realça a importância do cenário pré-leitura para tornar a pessoa solidária à leitura fria. Ele sugere -- e eu o acompanhei nessas sugestões -- adotando uma voz suave, um comportamento tranqüilo, e linguagem corporal solidária e não confrontacional: um sorriso agradável, contato visual constante, cabeça inclinada para um lado enquanto está ouvindo, e encarar a pessoa com as pernas juntas (não cruzadas) e não cruzar os braços. Iniciei cada leitura me apresentando como Michael de Hollywood, chamando-me de um "Intuidor Mediúnico" [do original em inglês: "Psychic Intuitor"]. (Essa foi uma derivação brilhante de Bill de minha versão original "Intuitivo Mediúnico" [do original em inglês "Psychic Intuitive'], que estava gramaticalmente incorreto -- precisávamos de um substantivo, nãoo um adjetivo.) Expliquei que meus "clientes" vêm me consultar a respeito de várias coisas que podem estar pesando muito em seus corações (o coração é o órgão preferido das tolices da Nova Era), e que como um intuidor meu trabalho era usar meu dom especial de intuição -- um dom, acrescentei, que todos temos mas que desenvolvi apenas através da prática -- para ajudá-los a encontrar seu caminho através dos caprichos da vida. Disse que começaríamos com aspectos gerais e então entraríamos em maiores detalhes, iniciando com o presente então uma olhadinha no passado e finalmente um vislumbre do futuro.

Também assinalei que nós médiuns não podemos predizer o futuro perfeitamente -- assim preparo uma desculpa de antemão para erros mais tarde -- explicando como procuramos por tenddências gerais e "inclinações" (um chavão astrológico). Trabalhei com a desculpa adicionando um toque de humor implícito também objetivando estabelecer um vínculo entre nós: "Por um lado seria maravilhoso se tivesse uma precisão de cem por cento, veja, ninguém é perfeito. Afinal de contas, se eu pudesse adivinhar psiquicamente os números sorteados da loteria da semana que vem, poderia guardá-los apenas para mim!" Finalmente, expliquei que há muitas formas de leituras mediúnicas, incluindo Cartas de Tarô, Leitura da Palma da Mão, Astrologia, e outras, e que minha especialidade era. . . a modalidade que iria aplicar com aquela pessoa em particular.

Como não faço leituras mediúnicas para viver, não tenho um estoque de diálogos, perguntas e comentário de onde possa tirar, então delineei a leitura nos seguintes temas que são fáceis de se lembrar (ou seja, existem áreas principais sobre as quais as pessoas querem falar quando vão a um médium): Amor, Saúde, Dinheiro, Carreira, Viagem, Educação, Ambições. Também adicionei um componente de personalidade, uma vez que a maioria das pessoas quer ouvir algo sobre seu eu interior. Não tive tempo de memorizar todas as características de personalidade triviais que os médiuns lançam a suas vítimas, então usei o Modelo de Cinco Fatores de personalidade, também conhecido como os "Cinco Grandes", que tem um  acrônimo fácil em OCEAN [no original em inglês]: Receptividade a experiências, Consciência, Extroversão, Agradabilidade, e Neuroticismo. Desde que tenho conduzido pesquisa de personalidade com meu colega Frank Sulloway (principalmente através de um método que somos pioneiros em avaliar as características da personalidade de personagens históricas tais como Charles Darwin, Alfred Russel Wallace e Carl Sagan através do uso de avaliadores especializados), foi fácil para mim usar os vários adjetivos usados pelos psicólogos para descrever estas cinco características de personalidade. Por exemplo: Receptividade a Experiências (fantasia, sentimentos, gosto por viagens), Consciência (competência, ordem, responsabilidade), Agradabilidade (flexível versus inflexível), Extroversão (gregarismo, confiança, procurando por diversão) e Neuroticismo (ansiedade, raiva, depressão). Uma vez que há pesquisas experimentais sólidas validando essas características, e como aprendi através da pesquisa de Sulloway como são influenciadas por dinâmicas familiares e ordem de nascimento, possibilitou-me empregar esse conhecimento a meu favor nas leituras, incluindo (com grande efeito) fixar a ordem correta de nascimento (o mais velho, ou do meio ou o caçula) de cada um de meus clientes! Comecei com o que Rowland chama de a "Artimanha do Arco-íris" e a "Boa Bajulação" e o que outros mentalistas mais comumente chamam de uma leitura Barnum (oferecendo algo para todos, como P.T. sempre fez). Os componentes da leitura seguinte vêm de várias fontes, o arranjo seqüencial particular é de minha autoria. Essencialmente iniciei todas as minhas leituras com esta declaração geral:

Você pode ser uma pessoa bastante atenciosa, sempre pronta a ajudar os outros, mas há momentos, se for honesto, quando reconhece um traço de egoísmo em você mesmo. Diria que no todo você pode ser bastante quieto, do tipo que "fica na moita", mas quando as circunstâncias são positivas, pode ser verdadeiramente a vida da festa se estiver com o humor em alta. Às vezes você é honesto demais quanto a seus sentimentos e revela muito a seu respeito. É bom em pensar nas coisas no todo e gosta de ver a prova antes de mudar sua idéia sobre alguma coisa. Quando você se encontra numa nova situação é muito cauteloso até descobrir o que está acontecendo e então começa a agir com confiança.

O que vejo aqui é que você é alguém em quem geralmente se pode confiar. Não um santo, não alguém perfeito, mas vamos dizer que quando algo realmente importa é alguém que realmente compreende a importância de ser digno de confiança. Você sabe como ser um bom amigo.

Você é capaz de disciplinar-se de modo que a parecer estar sob controle para os outros, mas na verdade algumas vezes você se sente de alguma forma inseguro. Você queria poder ser um pouquinho mais popular e mais à vontade em seus relacionamentos interpessoais do que é agora.

Você é sábio nas coisas do mundo, uma sabedoria ganha mais através de duras experiências do que de livros.

De acordo com Rowland -- e ele ficou marcado por essa -- a declaração "Você é sábio nas coisas do mundo, uma sabedoria ganha mais através de duras experiências do que de livros" era a bajulação padrão outro. Cada um de meus clientes balançou a cabeça furiosamente confirmando e dizendo que essa declaração realmente fez um excelente resumo dele.

Após uma declaração geral e avaliação da personalidade, passei para comentários específicos surrupiados diretamente da lista de Rowland dos palpites de alta probabilidade. Estes incluem itens encontrados na casa da pessoa:

E peculiaridades sobre a pessoa:

Adicionei um de minha própria autoria para aumentar o efeito: "Vejo um carro branco". Todos os meus clientes foram capazes de encontrar uma conexão significativa com um carro branco. Conforme estava lendo esta lista no vôo para Seattle na manhã da leitura, fiquei surpreso ao descobrir quantas aeromoças e pessoas ao me redor as validaram.

Finalmente, Rowland lembra aos seus médiuns substitutos que se o arranjo for feito adequadamente as pessoas estarão bastante propensas a oferecer informações, especialmente se fizer as perguntas certas. Veja algumas das melhores:

"Conta-me, no momento você está vivendo um relacionamento sério, não está?"
"Você está satisfeito em relação a sua carreira, ou há algum problema?"
"O que há de errado com sua saúde que o preocupa?"
"Quem é a pessoa que passou por você e que você estava tentando entrar em contato hoje?"

Enquanto seguia com a leitura Barnum lembrei-me de incrementar o comentário com aquilo que Rowland chama de "perguntas acidentais", tais como:

". . . agora por que seria assim?"
". . . isso faz sentido pra você?"
". . . isso parece certo?"
". . . você diria que isso está no caminho certo pra você?" ". . . isso é significativo para você, não é?" ". . . você consegue se conectar com isso, não consegue?"
". . . então a quem isso pode se referir por favor?"
". . . a que isso pode estar ligado em sua vida?" ". . . a qual período de sua vida, por favor, isso pode estar relacionado?" ". . . então me diga, como isso pode ser significativo pra você?" ". . . consegue ver o por quê isso pode dar a impressão que estou recebendo?"

Com essa experiência, toda oriunda de um único dia de leitura intensa e muitas anotações, estava pronto.

A Leitura das Cartas de Tarô

Minha primeira cliente tinha a idade de 21 anos, para quem eu ia fazer uma leitura de cartas de Tarô. Para me preparar comprei um "Baralho de Tarô Haindl", criado por Hermann Haindl e fabricado por  U.S. Games Systems em Stamford, Connecticut (US$16,00), no Alexandria II uma livraria "new age" de Pasadena, Califórnia, e li o pequeno folheto que vem junto com o baralho (um resumo de uma narrativa de dois volumes que presumivelmente dá uma explicação detalhada de cada carta). É um bonito baralho de cartas, com ilustrações elegantes, cada um contendo um símbolo astrológico, um sinal de Runas, uma letra hebraica, símbolos de I Ching e diversos símbolos míticos da história. Por exemplo, a descrição da carta da Roda da Fortuna diz:

A roda é posta contra um campo de estrelas simbolizando o cosmos. Embaixo, olhando para cima, está a Mãe, a Terra. No canto superior esquerdo está o Pai do Céu, Zeus. No canto superior direito está uma criança andrógina. A criança, com seu rosto mirrado, representa a humanidade e nossos antepassados. Dentro da Roda, os cogumelos simbolizam sorte, a cobra, renascimento, o olho, tempo, o dinossauro, todas as coisas perdidas na virada do tempo. O Divinatório significa: Mudança de circunstâncias. Tome conta de sua própria vida. Agarre firme o destino. Tempo de tomar o que vida deu a você.

Para um efeito dramático, minha apresentação incluiu a carta da morte, na qual se lê:

A imagem do barco pertence tanto ao nascimento como a morte; o berço do bebê originalmente simbolizava um barco. As árvores e a  grama significam plantas, os ossos, minerais, os pássaros, o mundo de animal, e o barqueiro, o mundo humano. O olho do pavão no centro significa olhar pra verdade em relação a morte. O pássaro também simboliza a alma e o potencial divino de uma pessoa. O Divinatório significa: A carta da Morte raramente se refere a morte física. Ao invés, tem a ver com o sentimentos da pessoa em relação a morte. Psicologicamente, deixe-se levar. Novas oportunidades.

Num total de 78 cartas não havia nenhum meio de memorizar todos os significados "reais" e símbolos, então na noite anterior sentei-me com minha família e lemos todo o manual de instruções e fizemos uma leitura em conjunto, revemos o que cada uma das 10 cartas que usamos deve significar. Minha filha Devin de 11 anos então fez perguntas pra mim a respeito das cartas até que estivessem na ponta da língua. (Acho que isso não foi feito apenas pelo desejo de Devin de ajudar seu pai; também teve a vantagem distinta de tirá-la do dever de casa durante aquela noite, além de eu receber uma prova de meu próprio remédio de aprendizagem repetitiva). Usei o que é chamado de "Seqüência Hagall" (não foi dada nenhuma explicação sobre quem é ou o que é Hagall), onde inicialmente tiram-se quatro cartas do baralho em uma forma de diamante, então põe-se três cartas no alto e mais três embaixo. Esta seqüência deve indicar:

  1. A situação geral
  2. Algo que você fez, ou uma experiência que você teve que ajudou a criar a situação atual
  3. Suas crenças, impressões e expectativas, conscientes ou subconscientes ou a situação
  4. O resultado possível da situação como as coisas estão agora
  5. História espiritual, como você se comportou, o que você aprendeu
  6. Tarefa espiritual desta vez, desafios e oportunidades na situação atual
  7. Metamorfose, como a situação mudará e as tarefas espirituais que virão pra você como resultado
  8. O Ajudante: Imagine a pessoa real. Esta pessoa te dá apoio
  9. Você mesmo. Você está expressando as qualidades da pessoa mostrada na carta
  10. O Professor. Esta figura pode indicar as exigências da situação, e também o conhecimento que você pode adquirir com a situação

Na hora da leitura me esqueci de tudo isso, então inventei uma história dizendo que as quatro cartas do centro representam o presente, as três cartas de cima representam o futuro,  e as três cartas de baixo são os caracteres que vão ajudá-la a alcançar aquele futuro. Deu pra ver que não importa que história você inventa, desde que soe convincente. Fiquei feliz, entretanto, que tenha memorizado os significados dos símbolos e caracteres nas cartas que usei porque minha cliente tinha feito previamente leitura de cartas de Tarô. (Desde que você deve deixar o cliente embaralhar as cartas de Tarô antes do início para passar sua influência ao baralho, escamoteei as cartas memorizadas e então as coloquei no topo da baralho recém embaralhado.) Como essa foi minha primeira leitura estava um pouco travado e nervoso, então não desviei muito da leitura padrão Barnum, trabalhei do meu jeito usando com grande sucesso os Cinco Grandes traços de personalidade (e através disso adivinhei corretamente que ela era a filha do meio entre os irmãos mais velho e o caçula), e não arrisquei nenhuma das suposições de alta probabilidade. Como ela era estudante imaginei que estava indecisa sobre sua vida, então ofereci várias generalidades bastante usadas que se aplicaria a quase qualquer pessoa: ela está incerta sobre o futuro mas existem várias possibilidades, ela confia em seus talentos embora ainda tenha alguma insegurança, uma viagem está em seu futuro imediato, ela apresenta um equilíbrio saudável entre a cabeça e o coração, intelecto e intuição, etc.

Cartas de Tarô são uma grande jogada porque proporcionam a pessoa que faz leitura fria um bom material para se usar, algo para referenciar e apontar, algo para a pessoa  perguntar. Coloquei de propósito a carta da "Morte" na seqüência porque essa parece deixar as pessoas ansiosas (lembre-se que a carta da "Morte" esteve nos noticiários recentemente porque o franco-atirador da costa leste disse que ela o influenciou a começar a matança). Isso me deu uma oportunidade de pontificar sobre o significado da vida e da morte, que a carta na verdade não representa a morte física mas uma morte metafórica, transições na vida são uma época de oportunidades -- a "morte" de uma carreira e o "renascimento" de outra carreira -- e outras coisinhas assim. A linha foi lançada, a isca armada e o peixe fisgou.

Após cada leitura os produtores conduziram uma rápida entrevista gravada com a pessoa, perguntando o que achou da leitura. Micael disse que achou que a leitura foi boa, que eu resumi com exatidão sua vida e personalidade, mas que não houve nenhuma surpresa, nada chocante que a surpreendesse. Ela já tinha consultou médiuns e que a minha foi bastante típica. Achei que a leitura foi medíocre na melhor das hipóteses. Eu estava apenas começando.

A Leitura da Palma da Mão

Minha segunda leitura foi com uma jovem de 19 anos. A leitura da mão é o melhor dos materiais mediúnicas porque, como nas cartas de Tarô, há algo específico para referenciar, porém tem a vantagem adicional de fazer contato físico com a pessoa. Não conseguia recordar o que todas as linhas na palma da mão devem representar, então enquanto memorizava as cartas de Tarô, Devin fez uma busca no google e baixou um mapa da palma, que descrevia as linhas (pregas) para a Vida, Cabeça, Coração, Saúde, Destino, Casamento, Dinheiro, Sexo, Espírito, Viagem e Sorte. Eu me concentrei principalmente nas linhas da Vida, Cabeça, Coração e Saúde, e para um efeito extra adicionei alguma coisa sobre as linhas do Casamento, Dinheiro e Destino. As tolices úteis incluíam:

Em uma página da internet baixei algum material sobre os ângulos dos polegares em relação a mão que foram bastante úteis. Você deixa a pessoa repousar as palmas das mãos para baixo na mesa, e então observa se estão relaxadas ou tensas e se os dedos estão próximos ou separados. Isso indica expressamente o quanto uma pessoa está tensa ou relaxada, o quanto a pessoa é extrovertida ou introvertida, o grau de confiança ou insegurança que a pessoa sente, etc. De acordo com um quiromante um ângulo pequeno do polegar "revela que você é uma pessoa que não se apressa em fazer as coisas. É cauteloso e observa sabiamente a situação antes de agir. Você não é agressivo quanto a seguir seu caminho". Um ângulo médio do polegar "revela que você faz as coisas tanto para si mesmo como para os outros de bom grado. Você não é excessivamente intelectual sobre o que vai fazer, então não perca muito tempo fazendo planos desnecessários para cada trabalho". E um ângulo grande do polegar "revela que você é ávido para iniciar e ter as coisas feitas imediatamente. Faz as coisas rapidamente, confiantemente e prazerosamente porque gosta de assumir o controle e receber o trabalho feito". Convenientemente, você pode usar com sucesso qualquer uma dessas descrições com qualquer pessoa.

Pode-se dizer qual é a mão dominante de uma pessoa porque esta é um pouco maior e mais musculosa. Isso me deu uma abertura para dizer a minha cliente, que era canhota, que ela possui o cérebro direito dominante, o que significa que ela põe mais ênfase na intuição do que no intelecto, que ela própria é muito intuitiva (Rowland diz que é um grande truque lisonjear os ouvintes com elogios quanto a seus próprios poderes mediúnicos), e que sua sabedoria vem mais da experiência real mundana do que o aprendizado tradicional com livros. Ela balançou energicamente a cabeça em concordância.

De acordo com vários "especialistas" em quiromancia, você deve comentar sobre a cor e textura da pele, pelos no dorso das mãos e forma geral das mãos. Supõem-se que qualquer discrepância importante entre as duas mãos seja um sinal de áreas onde a pessoa afastou-se de seu potencial inato. O médium também deve tomar nota da forma dos dedos. As falanges distais dos dedos (as pontas dos dedos) representam aspectos espirituais ou idealistas da pessoa, as falanges mediais aspectos práticos e cotidianos e as falanges proximais os aspectos emocionais da personalidade. Achei mais eficaz esfregar os meus dedos sobre os montinhos macios em cada segmento do dedo enquanto comentava sobre sua personalidade. Para esta leitura adicionei algumas suposições de alta probabilidade, começando com o carro branco. Acontece que a avó de 99 anos de minha cliente teve um carro branco, o que me deu uma abertura para comentar sobre a natureza especial de seu relacionamento com a avó, que estava na berlinda. Então tentei o calendário antigo, que não me trouxe uma resposta afirmativa, então recuperei mudando de assunto para um comentário mais geral: "Bem. . . o que eu estou vendo aqui é algo sobre uma transição de um período em sua vida para outro", o que rendeu uma afirmação positiva de Brittany de que ela estava pensando de trocar de curso na faculdade. A avaliação da minha leitura pela cliente foi ligeiramente mais positiva do que a da primeira, como também minha auto-avaliação, mas ninguém ainda foi surpreendido por algo dito. Ainda estava acumulando energia para o grande desafio que estava por vir.

A Leitura Astrológica

Minha terceira cliente era outra jovem de 20 anos, e foi a consulta mais difícil do dia. Ela deu respostas monossilábicas a minhas perguntas acidentais para extrair informação, e não parecia que fosse acontecer muito coisa em sua vida que precisasse muito de um conselho psíquico. Usei um mapa astrológico que baixei da Internet. Foi feito algum tempo atrás para um cara chamado John Corbett, nascido em 9 de maio de 1961. A jovem nasceu em 3 de setembro de 1982. Não tinha nem idéia do que o mapa significava. Obviamente, uma vez que na verdade isso não significa nada, comecei explicando que "as estrelas predispõem mas não obrigam", e então inventei um monte de coisas sobre como a conjunção de ter uma lua crescente na terceira casa e um sol poente na quinta casa é uma indicação de que ela tem um futuro brilhante adiante, e que sua personalidade é um equilíbrio saudável entre cabeça e coração, mente e espírito, intelecto e intuição. Ela balançou a cabeça concordando.

Sugeri um punhado de suposições de alta probabilidade e recebi resposta afirmativa para metade delas (incluindo a sobre usar o cabelo mais longo quando mais nova), então terminei a leitura perguntando se ela queria fazer alguma pergunta. Ela disse que tinha solicitado uma bolsa de estudos para participar num programa internacional de intercâmbio estudantil na Inglaterra, e queria saber se ia conseguir. Respondi que no momento o que mais importava não era se ela ia receber ou não a bolsa de estudos, mas como ela lidaria recebendo ou não, e que eu estava bastante confiante de que sua personalidade bem equilibrada a permitiria lidar com o resultado, seja qual fosse. Isso pareceu muito bom. Na entrevista após a consulta ela foi muito mais positiva do que antecipei, considerando a dificuldade da leitura, então suponho que podemos contar essa como um  sucesso de uma maneira geral, embora não estivesse particularmente orgulhoso da consulta.

Leitura Mediúnica

Minha quarta cliente tinha a idade de 58 anos, para a qual ia fazer uma verdadeira leitura fria sem nenhuma alegoria. Comecei com a leitura Barnum, mas não avancei muito com essa técnica visto que se tornou aparente que ela estava com uma disposição maior para falar sobre seus problemas. Ela não queria ouvir toda aquela baboseira genérica. Queria ir direto as questões específicas em sua mente naquele dia. Uma vez que ela estava acima do peso e não parecia particularmente saudável, e eu não queria comentar nada seu peso, disse que estava captando algo sobre sua preocupação quanto a saúde e dieta, supondo, desde que ainda era início de janeiro, que ela provavelmente fez uma resolução de Ano Novo quanto a perder peso e começar um novo programa de exercícios. Na Mosca! Esse assunto então trouxe uma abertura sobre sua recente cirurgia nas costas e outros problemas de saúde. Tentei uma série de suposições de alta probabilidade que funcionaram muito bem, especialmente a caixa de fotografias, aparelhos quebrados ao redor da casa, e a história dos cabelos longos e curtos, todos acertos, especialmente o cabelo, os quais explicou muda constantemente. Disse que captava algo sobre uma cicatriz ou escoriação em seus joelhos, e que a deixou fora de combate. Ela disse que não machucava os joelhos desde a infância, mas exatamente na semana anterior tinha caído e sofrido um corte feio nos joelhos. Mais Uma! Embora fosse capaz de pinçar da conversa que ela tinha recentemente perdido a mãe, e alguns minutos de comentários genéricos meus sobre a mãe estar perto dela em suas memórias a deixou em lágrimas, ela realmente veio para resolver o problema do filho. O que ele ia fazer? Um minuto de perguntas e respostas revelou que ele está no último ano do ensino médio, então deduzi que como mãe, ela estava preocupada com ele indo para outra cidade fazer a faculdade. Líquido e certo! Sobre o que exatamente ela estava preocupada? Ele estava pensando em ir para a USC, então antecipei antes que ela pudesse explicar, e presumi que era porque a University of Southern California está localizada no centro de Los Angeles, não exatamente a vizinhança mais segura na área.

Na entrevista após a consulta essa cliente elogiou bastante minha intuição mediúnica e Bill e seus produtores ficaram eufóricos quanto ao grande drama de televisão que isso podia se tornar. Imagine como os produtores de John Edwards devem ter se sentido após uma gravação de Crossing Over. ( Em uma nota positiva lemos que naquele dia a série de televisão de James Van Praagh tinha acabado de ser cancelada devido a baixa audiência).

 Conversando com os Mortos

Minha última cliente era uma mulher de 50 anos de idade. . . e minha melhor leitura. Ela tinha contado ao produtor de Bill que tinha algo bastante específico sobre o que ela queria falar, mas não ia dar nenhuma pista sobre o que era. Não levaria muito tempo para eu descobrir. Quando me apresentei e apertei suas mãos, notei que eram excepcionalmente musculosas e as palmas estavam suadas. Era uma pessoa altamente sensível e nervosa que obviamente estava emotiva e agitada. Deduzi que alguém próximo a ela tinha morrido (a frase adequada é "passou para espírito"), e que ela queria fazer contato. "Estou sentindo várias pessoas que faleceram, pais ou alguém que figurava como um dos pais para você". Era seu pai que tinha morrido, e claramente ela tinha negócios inacabados com ele.

Da conversa que se seguiu descobri que seu pai tinha morrido quando ela tinha 27 anos, então deduzi que deve ter sido uma morte repentina (correto) e que ela não teve a oportunidade de fazer as pazes com ele (também correto). Finalmente, deduzi com exatidão que ela estava triste porque gostaria de ter compartilhado com o pai suas muitas experiências de vida ao longo das duas últimas décadas. . . "como ter tido um filho". Errado -- ela não tinha filhos. Sem me abater com o golpe dei o seguinte contragolpe: "Oh, o que quero dizer é. . . dando a luz a uma nova idéia ou um novo negócio". Bateu na trave! Ela era uma empresária cujo pai foi um homem de negócios de sucesso com quem adoraria ter compartilhado os sucessos.

Não demorou muito antes que ela estivesse quase soluçando. Era uma mulher emotivamente frágil de quem facilmente podia ter tirado proveito soltando alguma frase vazia como "seu pai está aqui conosco agora e quer que você saiba que ele a ama". Mas sabia que teria que olhar no espelho na manhã seguinte e simplesmente não podia fazer isso, mesmo para uma exposição válida de uma prática muito ruim. No lugar disse "seu pai iria querer que o guardasse no coração e em suas memórias, mas que agora é a hora de tocar a vida". Quis dar a ela algo específico, bem como animar a sessão porque estava ficando bastante deprimente, então disse "e não tem problema se jogar fora todas aquelas caixas com as coisas dele que você vem guardando mas que gostaria de se livrar". Ela desatou em risos e confessou que tinha uma garagem repleta de pertences de seu pai que há tempos gostaria de se desfazer mas sentia-se culpada de fazê-lo. Essa mudança foi, espero, uma mensagem moral que não violou nenhuma confiança de minha parte e ainda teve o efeito desejado para nosso programa.

Na entrevista após a sessão ela disse que tinha ido a médiuns por mais de dez anos tentando resolver esse negócio com seu pai, e que a minha foi a melhor sessão que já teve. Puxa! Isso tornou meu dia psíquico.

A Revelação

Nosso plano original era contar a todas as participantes após as sessões de que isso tudo foi apenas uma armação para expor impostores  mediúnicos como nada mais além de artistas tranbiqueiros prontos para enganar as pessoas. Particularmente não estávamos preocupados com as participantes mais jovens porque, afinal de contas, se a maior crise em suas vidas é ter que decidir se farão uma especialização em Artes Cênicas ou Literatura Inglesa, a veracidade de uma sessão mediúnica é um problema menor no esquema cósmico maior. Mas para as duas últimas decidimos que elas precisavam ser tratadas de uma maneira um pouco mais delicada. Bill e os produtores explicaram da seguinte maneira: "Queremos que você saiba que Michael não é um médium. É psicólogo. Queríamos ver se ele podia fazer o que os médiuns fazem em termos das supostas leituras intuitivas. Embora entendemos que isso provavelmente pareceu real para você, não foi real para Michael em qualquer sentido mediúnico".

A Virtude dos Escrúpulos 

Não sou um médium e não acredito que ESP (Percepção Extra-sensorial), telepatia, clarividência, clariaudiência, nem que qualquer das outras formas de poder psíquico tenha qualquer base real seja qual for. Não há a menor prova de que qualquer uma dessas coisas seja real, e o fato de que pude fazê-lo razoavelmente bem com apenas um dia preparação mostra justamente o quanto as pessoas são vulneráveis a essas baboseiras muito eficazes.  Posso apenas imaginar o que poderia fazer com mais experiência. Dê-me seis horas por dia de prática durante alguns meses e não tenho nenhuma dúvida de que poderia facilmente apresentar uma série de televisão de sucesso e aumentar em ordens de magnitude minha conta bancária atual. Isso -- se não fosse pela virtude de sentimentos morais desenvolvidos e escrúpulos de culpa -- eu faria. Não posso fazer isso por uma única razão simples -- isso é errado. Perdi meus dois pais -- meu pai repentinamente por um ataque cardíaco em 1986, minha mãe lentamente de câncer no cérebro em 2000 -- e não posso imaginar nada mais insultante aos mortos, e mais insidioso aos vivos, do que construir uma fantasia que eles pairam ao redor no éter mediúnico, esperando algum auto-proclamado canal mediúnico revelar a mim insights surpreendentes sobre cicatrizes em meus joelhos, eletrodomésticos quebrados, e desejos não realizados. Isso é pior do que errado. É depravação injustificada.

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Micheal Shermer é presidente da Skeptics Society, e editor e editor-chefe da Skeptic Magazine. Este artigo foi originalmente publicado no Vol. 10, No. 1 (2003) da revista.

Quackwatch em português

Este artigo foi publicado no site original em 1 de maio de 2003.
Versão em português de Gilson C. Santos, publicada em 13 de dezembro de 2003.
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