Quackwatch em português

 

Não Deixe os Quiropráticos Enganarem Você

Stephen Barrett, M.D.

Os quiropráticos(*) alegam que sua profissão foi fundada em 1895 quando Daniel David Palmer restaurou a audição de um zelador surdo "ajustando" uma saliência em sua coluna. Logo após isto, ele concluiu que ossos desalinhados ("subluxações") interferiam com a expressão da "Inteligência Inata" do corpo -- a "Alma, Espírito ou a Chama da Vida" que controla os processos de cura.

Apesar da filosofia e tratamento variar enormemente de um praticante para outro, a maioria dos cerca de 50 mil quiropráticos americanos de hoje podem ser classificados como "puristas" ou "mistos". Os puristas tendem a aderir a doutrina de Palmer de que a maioria das doenças são causadas por ossos da coluna vertebral desalinhados ("subluxações") corrigível pelo ajustamento da coluna. Alguns puristas, entretanto, sustentam que eles nem diagnosticam nem tratam doenças, mas se limitam a detectar e corrigir subluxações vertebrais. Os mistos reconhecem que certos fatores como germens e hormônios desempenham um papel nas doenças, mas eles tendem a dar um valor maior aos distúrbios mecânicos do sistema nervoso como a causa principal da diminuição da resistência às doenças. Louis Sportelli, D.C. [doctor of chiropractic], que mais tarde se tornou presidente do comitê de governadores da American Chiropractic Association, expressou este conceito em um panfleto intitulado "Quais os Tipos de Problemas que os Quiropráticos Tratam?" os quais ele distribuiu na década de 1980. O panfleto declarava: 

O doutor de quiropraxia dirige sua atenção à coluna vertebral, procurando por uma área que está desviada do normal. O desvio ou mal posicionamento de uma vértebra pode causar um desequilíbrio neurológico dentro do corpo, armando o cenário para uma queda na resistência, e subseqüentemente um processo patológico. . . . 

A quiropraxia é baseada na premissa de que cada glândula, órgão e célula do corpo precisa de um suprimento nervoso para funcionar apropriadamente. Portanto parece lógico que disfunções nestas áreas também responderia aos ajustes quiropráticos. 

É com este pensamento básico em mente que a resposta para, "O que você pode tratar, doutor?" deveria ser tão variada e vasta como próprio sistema nervoso. 

Além da manipulação espinhal, os mistos podem prescrever preparados de nutrientes, produtos homeopáticos e diversos tipos de fisioterapia (calor, frio, tração, exercícios, massagem e ultra-som). Os puristas tendem a menosprezar diagnósticos médicos, alegando que o exame da coluna vertebral é a maneira apropriada para os quiropráticos analisarem seus pacientes. Os mistos são mais prováveis de diagnosticar condições médicas além das anormalidades espinhais, e a encaminhar pacientes aos médicos para tratamento. Alguns praticantes alegam que o tratamento quiroprático é eficaz contra aproximadamente a gama completa de doenças humanas. Uma pequena porcentagem dos quiropráticos rejeitam o dogma de Palmer e tratam somente problemas musculoesqueléticos. Não acredito que a manipulação da coluna vertebral seja eficaz contra outros problemas. 

Achados de Pesquisa

Durante os últimos anos, dois relatos sobre o tratamento da lombalgia (dor lombar) colocou a quiropraxia em uma luz favorável. Um deles, publicado pela RAND Corporation, concluiu que a manipulação da coluna vertebral foi apropriada para alguns casos de lombalgia. O outro, conduzido pela Agency for Health Care Policy and Research (AHCPR), julgou a manipulação útil para controlar os sintomas enquanto se aguarda a recuperação espontânea que ocorre dentro de um mês na maioria dos pacientes com problemas lombares. 

Apesar dos quiropráticos terem promovido estes relatos como um endosso da quiropraxia, eles não são. Meramente apóiam o uso da manipulação em pacientes selecionados cuidadosamente. Somente alguns dos estudos nos quais suas conclusões foram baseadas envolvia a manipulação por quiropráticos; a maioria foi feita por médicos e fisioterapeutas cujos métodos não são idênticos àqueles dos quiropráticos. A maioria dos quiropráticos manipulam a grande maioria dos pacientes que atravessam suas portas, alguns usam técnicas que não foram estudas cientificamente, e muitos instigam todos seus pacientes a retornarem mensalmente ou mesmo semanalmente para visitas de "manutenção preventiva" por toda a vida. Além disso, muitos quiropráticos enfatizam uma técnica que é mais vigorosa (e desse modo menos segura) que a manipulação controlada usada por outros praticantes. Os únicos lugares onde "quiropraxia" e "quiropráticos" são mencionados no corpo do relato da AHCPR são nas passagens sobre a composição do painel de especialistas da AHCPR.

Raios X e Medicare

A maioria dos quiropráticos alegam que os raios X os ajudam a localizar as "subluxações" que D.D. Palmer previu. Mas eles não concordam entre si sobre o que são as subluxações. Alguns quiropráticos acreditam que elas são ossos deslocados que podem ser vistos em radiografias e que podem ser colocados no lugar através de ajustes na coluna vertebral. Outros definem as subluxações de maneira vaga ou dizem que elas não são necessariamente mostradas em raios X. Mas o que os quiropráticos afirmam a respeito dos raios x também depende de quem perguntou e como a pergunta é colocada. 

A quiropraxia coberta pelo Medicare [sistema federal de seguro saúde dos EUA], que começou em 1973, era limitada a manipulação manual da coluna vertebral para o tratamento de "subluxações demonstradas como existentes através de raios X." Para possibilitar o pagamento, os funcionários federais aceitaram uma elaborada "definição" quiroprática de subluxações para que o pagamento pudesse ser feito. Durante meados da década de 1980, a Setor de Inspetoria Geral (SIG) do U.S. Department of Health and Human Services entrevistou 145 quiropráticos por telefone sobre suas práticas cobertas. Oitenta e quatro porcento disseram que algumas subluxações não aparecem em raios X. Aproximadamente a metade respondeu que quando cobravam do Medicare, eles "sempre conseguiam encontrar algumas coisa" (através do raio X ou do exame físico) para justificar o diagnóstico, ou na verdade fabricavam o diagnóstico para obter o reembolso. O relato do SIG apontou que a manipulação quiroprática foi o nono procedimento mais freqüentemente cobrado do Medicare durante 1983. 

Em 1997, após muitos anos de intenso lobby, os quiropráticos persuadiram o Congresso americano a remover a demonstração obrigatória pelo raio X. O Ato de Orçamento Balanceado de 1997 elimina a exigência a partir de 1° de janeiro de 2000, e exigiu que o Secretário de Estado de Saúde e Serviços Humanos desenvolva e implemente a utilização de diretrizes para a cobertura da quiropraxia quando uma subluxação não for demonstrada pelo raio X. Espera-se que a nova política aumente o número de pedidos de pagamento do Medicare para os serviços quiropráticos.  

Prestadores de Assistência Primária?

Os planos do managed care oferecem acesso ilimitado ao médico primário, mas a assistência especializada deve ser autorizada por este médico -- geralmente um médico de família. Os quiropráticos estão preocupados que se eles não puderem ser acessados diretamente, seus rendimentos padecerão. Além disso, em comunidades onde o managed care predomina, os quiropráticos não participantes podem perder seu talento para ganhar a vida. Os líderes da quiropraxia estão tentando lidar com esta ameaça alegando que os quiropráticos são prestadores de assistência primária para os quais os pacientes deveriam ter acesso sem referências. 

Alinhados com este ponto de vista, a maioria dos quiropráticos alegam que podem diagnosticar problemas dentro de sua esfera de ação e encaminhar o restante para os prestadores apropriados. Entretanto, o treinamento clínico nas escolas de quiropraxia é imensamente inferior ao das escolas médicas. Ao passo que o corpo docente das escolas médicas é grande e contêm especialistas em virtualmente cada aspecto da prática médica, as escolas de quiropraxia tem pouco ou nenhum contato com especialistas médicos. Enquanto os estudantes de medicina vêem pacientes abrangendo a gama completa de doenças, a maioria dos pacientes vistos pelos estudantes de quiropraxia tem problemas musculoesqueléticos. Apesar de algumas de suas matérias serem baseadas em tratados médicos padrão, os estudantes de quiropraxia carecem da experiência clínica necessária para tornar a informação significativa. A educação quiroprática em assuntos como pediatria, obstetrícia e ginecologia normalmente é limitada à instrução na sala de aula com pouco ou nenhum contato real com pacientes e nenhuma experiência com pacientes hospitalizados. Uma escola, por exemplo, tem utilizado somente modelos de borracha para ensinar os estudantes como realizar exames pélvicos e retais! A Federation of Straight Chiropractors and Organizations (FSCO), que conta com milhares de membros, assegura que a prática da quiropraxia deveria ser limitada à análise e correção das "subluxações." A FSCO assegura que os quiropráticos nem são licenciados nem treinados para diagnosticar problemas médicos ou fazer referências médicas. Uma grande porcentagem dos quiropráticos não acreditam que as imunizações sejam eficazes e não as recomendam para os seus pacientes [1,2].

Por estas e outras razões, a alegação de que os quiropráticos são geralmente qualificados para serem "prestadores de assistência primária" é um absurdo. 

Roleta Espinhal?

Em 1992, pesquisadores do Stanford Stroke Center perguntaram a 486 membros californianos da American Academy of Neurology quantos pacientes eles tinham visto durante os dois últimos anos que tinham sofrido um derrame no prazo de 24 horas após a manipulação cervical (do pescoço) por um quiroprático. A pesquisa foi patrocinada pela American Heart Association. Cento e setenta e sete neurologistas relataram ter tratado 55 pacientes assim, todos tinham entre 21 e 60 anos. Um paciente morreu e 48 ficaram com déficits neurológicos permanentes como fala arrastada, incapacidade para ordenar palavras apropriadamente e vertigens. A causa usual dos derrames foi pensada como sendo a ruptura das paredes da artéria vertebral [3]. Uma revisão recente de 116 artigos publicados entre 1925 e 1997 encontrou 177 casos de lesão cervical associada com manipulação cervical, pelo menos 60% das quais foram realizadas por quiropráticos [4].

Uma paciente que comprovadamente morreu pela manipulação cervical foi Kristi A. Bedenbaugh, administradora de consultório médico e antiga rainha da beleza de Little Mountain, Carolina do Sul. Em 1993, Kristi consultou um quiroprático buscando alívio para dores da sinusite. Durante sua segunda visita, ela sofreu um derrame imediatamente após o quiroprático manipular seu pescoço. Ela morreu três dias depois, um dia antes de seu 25° aniversário. A autópsia revelou que a manipulação tinha causado a ruptura das paredes internas de ambas artérias vertebrais, levando as paredes a inflar e bloquear o suprimento sangüíneo para a parte inferior de seu cérebro. Estudos adicionais concluíram que os coágulos sangüíneos tinham se formado no dia que a manipulação fora realizada. Em 1997, o Comitê Estadual de Examinadores da Quiropraxia da Carolina do Sul emitiu uma ordem de consentimento na qual o quiroprático concordou em pagar mil dólares de penalidade e a alcançar12 horas de créditos em educação continuada nas áreas de desordens neurológicas e respostas à emergências.

Comentário do Leitor (em inglês)

Quão comuns são os derrames seguindo a uma manipulação cervical? Ninguém sabe. Nenhum pesquisador clínico se dedicou a este problema, e as companhias de seguro que cobrem a imperícia na quiropraxia se recusam a tornar seus dados públicos. A maioria das especulações variam de 1 em 400 mil à 1 em 3 milhões. Mas quando as manipulações são feitas sem uma razão válida -- como freqüentemente são -- nenhuma complicação é perdoável. 

Referências

1. Colley F. Chiropractic perspectives on immunization. Dynamic Chiropractic 11(2):32,38, 1993.
2. Anderson R. Chiropractors for and against immunization. Medical Anthropology 12:169-186, 1990.
3. Lee KP and others. Neurologic complications following chiropractic manipulation: a survey of California neurologists. Neurology 45:1213-1215, 1995.
4. Di Fabio R. Manipulation of the cervical spine: Risks and benefits. Physical Therapy 79:50-65, 1999.

Para Informações Adicionais

Em qual extensão os quiropráticos podem ajudar as pessoas? Faz algum sentido procurar assistência quiroprática? Se sim, como um quiroprático confiável pode ser encontrado? Estas perguntas -- as quais não simples de responder -- são discutidas amplamente em Chiropractic: The Victim's Perspective (1995), escrito por George J. Magner, III, e Inside Chiropractic: A Patient's Guide (1999), escrito por Samuel Homola, D.C. Ambos foram editados por mim e publicados pela Prometheus Books. Juntos eles proporcionam a análise mais detalhada do mercado da quiropraxia jamais publicada. Informações abrangentes também estão disponíveis no Chirobase, nosso guia cético da história, teorias e práticas atuais da quiropraxia. 

Comentário do Leitor

O grau de lavagem cerebral pelo qual alguns estudantes de quiropraxia são submetidos é demonstrado pelas mensagens de e-mail que recebo de tempos em tempos. A mensagem abaixo veio em dezembro de 1997 de um estudante da Sherman College of Straight Chiropractic.

Em referência ao seu site, especialmente a parte referente a jovem que morreu como resultado de um ajuste quiroprático, direi que é uma tragédia. Mas, aposto todo o dinheiro que tenho, que o número de pacientes que morreram sob o bisturi, por diagnósticos errados ou por reações adversas às drogas prescritas por médicos ultrapassa o número dos que morreram como resultado da assistência quiroprática em 100 para 1. E quantos ao paciente que apareceu nos jornais no início deste ano que teve a perna errada amputada? OOPS!!!!!!!!! O que sua profissão tem feito para combater o câncer Sr. Barrett? A quimioterapia não está funcionando. A radiação é o último esforço na melhor das hipóteses. E quanto ao furo que sua profissão tem desencavado com respeito a superprescrição de antibióticos. Que sozinha posa a maior preocupação com a saúde a partir de infecções na século XXI. Cepas super resistentes de estafilococos e estreptococos sozinhas podem ter grandes contaminações sobre a população. A era do bom e velho médico da família sendo o especialista em saúde está acabada. Claro e simples. Você é um dos dinossauros que em breve se extinguirão. Penso que em breve sua profissão terá uma impressão menos negativa da quiropraxia e possa ver os pontos positivos da assistência quiroprática então a arena da assistência à saúde se beneficiará. Vamos encarar a questão real. Os quiropráticos e os profissionais médicos tem objetivos similares. Os médicos são doutores de assistência às doenças. Os quiropráticos são doutores de assistência à saúde. Vocês tratam as doenças. Nós visamos esclarecer a causa das desarmonias na maquinaria operante do corpo que consideramos negativo para a operação eficiente do corpo. A profissão médica busca alterar a química do corpo para corrigir um estado afetado de alguma origem. Na maioria dos casos que fui exposto a médicos somente trataram os sintomas. Você acha que o corpo regula a si mesmo e é auto-suficiente? Se sim, então você acredita que existem momentos onde esta habilidade ou habilidades pode se tornar comprometida? Como um quiroprático eu me esforço para localizar aquelas entidades e ajudar o corpo a livrar-se daquelas desarmonias negativas de modo a facilitar que o corpo faça seu trabalho de uma maneira melhor. Adapte-se ou morra. Se você não consegue se adaptar no todo o meio ambiente te força a se deparar mais cedo ou mais tarde com seu sistema sendo soterrado. Finalizando direi que não sou anti-medicina. Porém sou pró-quiropraxia e como paciente sinto que terei uma melhor qualidade de vida com a assistência quiroprática. Vemos as coisas com olhos diferentes. Mas, não bata em algo até você ter experimentado. . . Agradeço a você por seu tempo e atenção. Feliz Natal e mantenha sua coluna checada.

Quackwatch em português

Este artigo foi revisto no site original em 17 de setembro de 1999.

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

N.T.: No original em inglês Chiropractic, refere-se a prática exercida pelo quiroprático, diversas formas são usadas no Brasil, antigamente usava-se mais a forma Quiroprática, atualmente mudou-se para Quiropraxia, denominação que adotaremos neste site. Mas também são usados: Quiropatia, Chiropraccia, Chiropatia, entre outras. Já a palavra em inglês Chiropractor, refere-se a pessoa que exerce a quiropraxia, também não existe uma tradução padrão para o português sendo utilizado diversas formas significando a mesma coisa: Quiroprático, chiroprático, quiropata, chiropata, são algumas das formas usadas no Brasil. Neste site preferimos utilizar a palavra quiroprático para designar este terapeuta. 

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