Quackwatch em português

 

"Liberdade de Escolha na Saúde"

William T. Jarvis, Ph.D.

Stephen Barrett, M.D.

Se os charlatões não conseguem ganhar jogando de acordo com as regras, tentam mudá-las ao transferirem da arena científica para a política. Na ciência, uma alegação médica é tratada como falsa até que se prove além da dúvida razoável. Mas na política, uma alegação médica pode ser aceita até que se prove falsa ou prejudicial. Isto é o motivo pelo qual os proponentes do laetrile, quiropraxia, psiquiatria ortomolecular, terapia de quelação e outras, levam seus casos aos legisladores ao invés de levá-los aos grupos científicos. 

Os charlatões usam o conceito de "liberdade de escolha na saúde" ["health freedom"] para desviar a atenção para longe deles e em direção das vítimas de doenças com as quais somos naturalmente simpáticos. "Estas pobres pessoas deveriam ter a liberdade de escolher qualquer tratamento que elas quisessem," choram os charlatões -- com lágrimas de crocodilo. Eles querem que ignoremos duas coisas. Primeiro, ninguém quer ser enganado, especialmente nas questões de vida e saúde. Vítimas de doenças não procuram tratamentos charlatanescos porque querem exercitar seus "direitos", mas porque foram enganadas a pensar que eles ofereciam esperança. Segundo, as leis contra as preparações inúteis não estão direcionadas contra as vítimas de doenças mas contra os promotores de terapias charlatanescas que tentam explorá-las. 

Qualquer ameaça a liberdade golpeia profundamente os valores culturais americanos. Mas também devemos compreender que a liberdade completa é apropriada somente em uma sociedade na qual todas as pessoas são perfeitamente dignas de confiança -- e nenhuma sociedade deste tipo existe. A experiência tem nos ensinado que o charlatanismo pode até mesmo levar as pessoas a se envenenarem, envenenarem seus filhos e a seus amigos. 

Leis de proteção do consumidor foram aprovadas para proteger desesperadamente pessoas doentes que são vulneráveis. Estas leis simplesmente exigem que os produtos e serviços oferecidos no mercado da saúde sejam tanto seguros como eficazes. Se fosse exigida somente segurança, qualquer produto ou serviço que não lhe matasse no ato seria vendido pelas ruas para os ingênuos. Para enfraquecer a proteção, os proponentes do charlatanismo buscam leis para proteger suas atividades e forçar as companhias de seguro a pagar por elas.

Algumas pessoas alegam que temos muita regulação governamental. Mas a questão deveria ser sobre a qualidade não a quantidade. Boas leis reguladoras são muitos importantes. Nossa oposição deveriam ser para com as leis reguladores ruins que abalam nossa economia ou dificultam nosso estilo de vida desnecessariamente. Leis de proteção do consumidor deveriam ser preservadas. 

Infelizmente, alguns políticos parecem ter esquecido estes princípios básicos e expõem o conceito do "health freedom" como se estivessem fazendo um favor aos seus eleitores. Na realidade, a "liberdade de escolha na saúde" constitui uma licença para caçar dada ao charlatanismo, com declaração de temporada aberta sobre os doentes, os assustados, os alienados e os desesperados. Representa um retorno a lei da selva na qual o mais forte se alimenta do mais fraco. 

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Este artigo foi adaptado de The Health Robbers: A Close Look at Quackery in America, editado por Stephen Barrett, M.D. e William T. Jarvis, Ph.D., publicado em 1994.

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